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Reportagens EDIÇÃO 31 - NOVEMBRO 2009

Jovens cangurus


Uma geração de profissionais independentes financeiramente que não querem deixar a casa dos pais dita um novo padrão de comportamento

 

É natural que os jovens, assim que começam a trabalhar e a ganhar o próprio dinheiro, sonhem em deixar a casa dos pais para ter o seu próprio canto, receber os amigos e namorados na hora que quiser. Isso faz parte da passagem para a fase da vida em que a noção de responsabilidade adquire um significado mais amplo. Entretanto, essa não tem sido a ordem natural das coisas para muitos adultos jovens. Mesmo formados e trabalhando, eles preferem permanecer na casa da família. Uns até têm planos de morarem sozinhos, mas são projetos a longo prazo. São os chamados jovens cangurus, uma analogia com os mamíferos da Austrália que andam de carona na bolsa abdominal da mãe.
Mas o que leva eles a não irem em busca de um espaço próprio? Um dos motivos que desestimula os irmãos Rudnei Karsburg, 28, e Milene, 23, (ele arquiteto e ela dentista) a deixarem a casa dos pais é a manutenção do padrão de vida que desfrutam. Roupa lavada, empregada doméstica à disposição e comida na mesa são alguns dos luxos dos quais teriam de abrir mão. "Sair de casa só quando eu tiver condições de manter o meu padrão de vida ou melhorá-lo", diz Rudnei. Enquanto isso, ele que já morou sozinho durante um intercâmbio na Itália e quando cursou faculdade em Porto Alegre, economiza o dinheiro que gastaria mantendo sua própria casa para que quando decidir ter seu canto possa ter recursos para mantê-lo.

LIBERDADE – Outro motivo que faz os jovens quererem permanecer na casa da família é que eles desfrutam em casa toda a liberdade que desejam. Filhos cangurus quase sempre têm pais liberais, que respeitam sua individualidade e não entram em conflito com eles. Milene diz que se for pesar os prós e os contras para ficar em casa só vê prós. “Nunca tivemos problema em trazer os amigos para cá. O namorado também sempre foi bem-vindo”, ressalta a jovem.



 

Rudnei e Milene: sair de casa só quando puderem manter sozinhos o padrão de vida que possuem na casa dos pais






 

Família unida: cumplicidade faz os filhos quererem prolongar a estadia na casa dos pais


Cumplicidade é a chave do bom relacionamento


A família dos agropecuaristas José Danilo Ottoni, 54, e de sua mulher, Vera Lúcia, 50, também se encaixa nesse modelo novo de comportamento. Seus filhos, Andréia, 29, e o Guilherme, 23, são formados e independentes do ponto de vista financeiro. Ela é dentista e ele, agrônomo. Nenhum dos dois pensa em sair de casa. Segundo Andréia um dos grandes fatores que a faz querer permanecer na casa dos pais é a possibilidade de usar o dinheiro economizado para poder dar continuidade aos seus estudos e também investir em seu consultório. “Em casa não tenho despesa nenhuma e se morasse sozinha teria que arcar com meu sustento, então não vejo sentido em sair daqui. Só quando eu tiver condições de ter uma casa própria e poder me bancar com o mesmo conforto que tenho aqui", observa.
Quem comemora a decisão são os pais, especialmente a mãe Vera Lúcia. “Acho ótimo eles seguirem morando conosco, pois isso é sinônimo de casa
cheia. Imagina a solidão que seria se eles já tivessem ido embora”, comenta. Namorados e amigos são sempre bem-vindos, festas e encontros também são liberados. “Gostamos de participar, então não tem porque não deixarmos eles terem essa liberdade”, ressalta a mãe. “Conheço casos em que a convivência familiar é tumultuada, pois os pais não permitem que os filhos façam nada em casa. Aqui é diferente, eles estão sempre abertos ao diálogo e isso me faz ainda querer morar com eles”, diz a dentista. Essa cumplicidade vivida pelos irmãos com os pais está na base da relação para ter uma convivência tranquila. Afinal, essa nova relação familiar só é possível quando os pais deixam de ver os filhos como subordinados a eles e se tornam seus companheiros.




Segundo o instituto de pesquisas LatinPanel, de São Paulo, há hoje no Brasil 3,3 milhões de famílias das classes média e alta com filhos cangurus. Isso equivale a 7% das famílias do país. A maioria deles se encontra na faixa dos 25 a 30 anos, mas, entre os já quase quarentões, 15% ainda moram com os pais.




A permanência de jovens adultos que já trabalham na casa dos pais é comum em muitos países. Na Itália, esse tipo de conduta é uma tradição. Já os japoneses são menos simpáticos ao se referir aos jovens cangurus. Eles são chamados de solteiros parasitas. Nos Estados Unidos, os jovens cangurus são chamados de filhos bumerangues e têm um perfil diferente. Pelos costumes americanos, ao ingressarem na faculdade, os jovens saem de casa e vão morar em repúblicas de estudante. Depois de formados, espera-se que eles logo arrumem emprego na área em que se especializaram e não voltem mais para a casa dos pais. Essa tradição é interrompida quando o nível de desemprego nos Estados Unidos se eleva. Foi o que aconteceu em 2003, quando mais da metade dos recém-formados americanos retomou o caminho de casa.








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