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Reportagens EDIÇÃO 23 - MARÇO 2009

Mistura explosiva


Jovens x álcool: muitos nem se dão conta que o excesso pode estar se tornando vício

 


A primeira experiência com álcool na vida de Bira da Silva aconteceu ainda na infância. Na adolescência, os contatos com a bebida foram ficando cada vez mais frequentes e com eles a abertura da porta para começar a usar drogas. “Aos 15 anos havia perdido o controle, mas somente aos 21 percebi que precisava de ajuda. Já bebia e também me drogava na dor, não era mais por prazer, era necessidade”, lembra. Hoje, aos 33 anos, Bira segue na luta contra o vício do álcool e da dependência química. Há mais de um ano ele está controlando a compulsão. Entre todas as tentativas, ele já viveu três recaídas. “Claro que nem todos que bebem vão se tornar dependentes, mas ninguém sabe com quem vai acontecer. Nunca me imaginei alcoólatra, por isso aconselho aos jovens: mantenham o controle”, ressalta Bira.


 

 

Bira: chaveiro que conta o tempo em  que ele está livre do vício



A psiquiatra Fernanda Scarparo Boeck, 37 anos de idade e 13 de profissão, confirma a afirmação de Bira. “Quem bebe vive uma roleta-russa, não se sabe quem se tornará dependente ou quem vai conseguir beber socialmente. Já se sabe que em quase 100% dos casos o vício começa na adolescência e quem costuma se exceder com freqüência tem mais chances de se tornar alcoólatra”, observa. A história de Bira não é um fato isolado. Assim como ele, é cada vez mais comum encontrar jovens que bebem diariamente e não se dão conta que o que era diversão está se tornando prejudicial ou até mesmo um vício.
O fácil acesso e a grande divulgação na mídia são os fatores a que Bira atribui sua dependência. “O problema é que o álcool, ao contrário de outras drogas, é tolerado e aceito socialmente. Ninguém se espanta ao ver um menino ou uma menina com uma latinha de cerveja na mão”, observa. Ao mesmo tempo em que a lei brasileira define como proibida a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, é prática comum o consumo de álcool pelos jovens. “Hoje a cultura do país remete bebida à festa, alegria e comemoração. As crianças já convivem com isso, então presenciar um adolescente bebendo é comum, seja no ambiente domiciliar, seja em festividades ou mesmo em ambientes públicos”, ressalta a psiquiatra.
ALARME - Claro que nem sempre ingerir álcool é sinal de alarme, é natural que o jovem conteste regras e busque uma série de experimentações, assim como mentiras e infringir regras. Esse comportamento acaba sendo esperado dentro de um limite. As atitudes passam a preocupar quando excedem essa linha, como deixar de ir à escola, não conviver com a família e, a partir disso, envolver-se em coisas mais graves. É nesse momento que os responsáveis pelo adolescente devem tomar providências.

 


Hora de buscar ajuda


Embora aceito socialmente, o uso do álcool se torna tabu quando vira dependência. Taxados de sem personalidade, alcoólatras encontram muitos obstáculos na hora de procurar ajuda para se tratar dessa doença que é reconhecida desde 1967 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Para o diagnóstico é preciso, em primeiro lugar, uma observação honesta dos pais ou responsáveis pelo adolescente, que devem reconhecer seus limites quando não conseguem mais lidar com o problema. O trajeto de cura passa por um trabalho multidisciplinar envolvendo profissionais da área de saúde. O apoio de grupos terapêuticos é uma alternativa que auxilia, à medida que fez o adolescente perceber que não está sozinho. Nesses grupos, há um compartilhamento de angústias, medos e conquistas. Em Cachoeira do Sul existem diversos grupos, como os Alcoólicos Anônimos e o Amor Exigente, que recebe também dependentes químicos.






 

Como manter os adolescentes longe do alcoolismo


Em primeiro lugar, dê o exemplo. Beba com muita moderação.


Não permita que menores bebam, nem na festa de casamento de um parente. Explique que isso é bebida de adultos e que deve ser ingerida com muito controle.


Esteja atento sempre à conduta do adolescente, mas sem paranóia. Im-ponha limites e controle o acesso à bebida. Para isso é necessário saber com quem andam, aonde vão, os locais que freqüentam.



 

Alguns sinais são característicos e indicam quando uma pessoa desenvolve a dependência alcoólica


Beber todos os dias, independentemente da quantidade ingerida. Para isso, ele se afasta das atividades rotineiras, o uso do álcool se torna o foco.


Distanciar-se da família.


Ficar irritado quando as pessoas falam da bebida.


Começar a beber logo cedo.


Não largar do copo em festas e pensar que todos estão contra você.


Achar que só você está certo em relação à quantidade que deve beber.



 

Depois de alguns goles


Pesquisas sobre o consumo do álcool na adolescência são constantes. Hoje sabe-se que os primeiros goles, que há uma década aconteciam por volta dos 15 e 16 anos, atualmente já ocorrem com 53% dos adolescentes entre 10 e 12 anos. Quanto mais cedo se começa a ingerir álcool, mais precocemente o organismo reagirá. De acordo com a psiquiatra Fernanda Scarparo Boeck, o uso contínuo e excessivo do álcool pode causar amnésia, disfunções sexuais, diarréia, hepatite alcoólica, problemas no sistema digestivo, elevação da pressão arterial e diminuição das defesas do organismo. “Fora que os efeitos imediatos são riscos de acidentes de trânsito e se expor a doenças sexualmente transmissíveis por transar sem proteção, já que se perde a inibição e noções de perigo”, observa. A longo prazo, independente do tipo de bebida ingerida, ela provoca alterações neurofisiológicas profundas, causando danos à memória e disfunções no sistema nervoso.

 


"Quem bebe vive uma roleta-russa, não se sabe quem se tornará dependente ou quem vai conseguir beber socialmente."

 






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Edição 136 - junho de 2019

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