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Reportagens EDIÇÃO 22 - FEVEREIRO 2009

Sem herdeiros por opção


Casais que preferem construir o futuro sem filhos são cada vez mais comuns

 

O plano era não ter filhos somente nos primeiros anos do casamento, mas o tempo foi passando, a idéia amadurecendo, as carreiras profissionais foram priorizadas e aos poucos Edson Fernando de Oliveira, 41, e Lisane Félix Velozo, 39, decidiram que não teriam herdeiros. A rotina de trabalho em três turnos do casal - ela é professora de Língua Portuguesa e Literatura e ele professor de Educação Física e personal trainer - foi o fator decisivo. “Como trabalhamos com crianças, acompanhamos de perto essa ausência dos pais e o quanto isso é prejudicial. Como decidimos priorizar a carreira, não teríamos tempo para dar toda a atenção que um filho necessita”, revelam. Edson e Lisane são exemplo de um tipo de casal que se torna cada vez mais comum: aquele que, mesmo sem ter detectado nenhum problema, opta por não engravidar.

Eles acompanham um padrão europeu, onde os casais preferem investir neles mesmos e os filhos não são mais o objetivo do casamento, uma tendência que já é registrada também no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) comprovam: de 1996 para 2006, a porcentagem de casais sem filhos em relação ao total dos arranjos familiares cresceu de 13,1% para 15,6%. Os que vivem esse tipo de união foram apelidados de casais dink, sigla para a expressão double income no kids, ou seja, dupla renda e nenhuma criança. O número de casais dink dobrou nos últimos anos no Brasil: hoje eles habitam 3,68% dos lares.
Juntos há 15 anos, sendo seis de casamento, Lisane e Edson são constantemente cobrados pela família, amigos e até mesmo pessoas que os conhecem há pouco tempo sobre a decisão de não ter filhos. “As pessoas querem saber por quê e dizem que vamos nos arrepender depois. Já pensei que estamos sendo egoístas, como muitos falam, mas cheguei à conclusão que egoísmo é ter um filho e ter que deixá-lo aos cuidados de uma babá e logo cedo já colocar na escola”, conta Edson. “Muitos já questionaram também por que trabalhamos tanto se não vamos ter para quem deixar o fruto dessa dedicação. Penso que trabalhamos para ter uma vida confortável, para que nós mesmos possamos desfrutar. Adoramos viajar e nem sempre uma criança cabe no roteiro”, salienta.
JUVENTUDE - Para eles, quanto mais tarde deixar para ter filhos, mais fatores são colocados na balança na hora da decisão. “Quando se é mais jovem, a empolgação deixa tudo mais simples. Depois de maduros, começamos a ver que educar uma criança já não é tão fácil, existe a questão financeira. Também pesa muito a idade, hoje já não tenho a saúde e paciência que tinha com 20 e poucos anos”, revela. A decisão de não ter filhos ainda causa estranheza. Tanta cobrança por parte da sociedade para que eles, assim como para casais que fizeram a mesma opção, tenham filhos faz parte da reação ao novo, já que o modelo de vida até há pouco era casar e ter filhos. É uma questão de cultura em que o ser humano nasce, cresce e deve procriar. Quem toma essa decisão em geral só encontra apoio de iguais, tanto que existe até site para trocar experiências e buscar informações, como www.casalsemfilhos.com.


 

Edson e Lisane: casal priorizou a carreira para se sentirem realizados



 


"Já pensei que estamos sendo egoístas, como muitos falam, mas cheguei a conclusão que egoísmo é ter um filho e ter que deixá-lo aos cuidados de uma babá e logo cedo já colocar na escola"
Edson




 

Por mais decidido que um casal esteja sobre o desejo de não ter filhos, se quiser se submeter a uma esterilização cirúrgica pode enfrentar dificuldades. Embora a lei brasileira permita a realização de vasectomia e ligadura de trompas em pessoas com mais de 25 anos, muitos médicos não aceitam fazer os procedimentos em quem não têm filhos, já que muitas vezes anos depois acabam mudando de idéia e o processo de reversão nem sempre é possível.



 



Nos Estados Unidos e na Europa, onde a porcentagem de pessoas sem filhos pode chegar a 30% da população feminina, os lançamentos do mercado editorial refletem o interesse pelo tema. A cada ano, é possível encontrar novos livros dedicados a casais sem filhos. Entre os mais recentes estão o americano "Pride and joy: the lives and passions of women without children" (Orgulho e alegria: as vidas e paixões de mulheres sem filhos) e o francês "No kid: quarante raisons de ne pas avoir d'enfant" (40 razões para não ter filhos). A escritora americana Madelyn Cain-Inglese, que escreveu o livro "The childless revolution: what it means to be childless today" (A revolução dos sem filhos: o que significa não ter filhos hoje), diz que certamente não ter filhos está em alta, apesar dos avanços nos tratamentos para infertilidade. “À medida que entram para a força de trabalho, curtem o que fazem, esperam mais para se casar e observam a luta das colegas para educar os filhos, mais e mais mulheres estão optando por não tê-los".

 

 






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