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Reportagens Edição 214 - Setembro de 2026

Do “oxente” e do “mermão” ao “bah, tchê”


“Posso dizer que as pessoas desta cidade me acolheram muito bem. Hoje, me sinto em casa”, conta Kauã, que há 4 anos se tornou cachoeirense de coração.

Jovens atravessam o Brasil para estudar em Cachoeira 

 
 
O sotaque entrega antes mesmo da apresentação. Entre um “oxente”, um “mermão” e os inevitáveis “bah” que começam a surgir no vocabulário, três estudantes descobriram que sair de casa para cursar a universidade vai muito além da formação acadêmica. É sobre aprender novos costumes, reinventar rotinas, sentir saudade… e colecionar histórias que parecem roteiro de filme universitário.
 
Vindos da Bahia e do Rio de Janeiro, Kauã Fernandes, Tanane Fernandes e Camila Queiroga trocaram praias, calor e grandes centros pela rotina universitária da UFSM Campus Cachoeira do Sul. E, no caminho, encontraram muito mais do que um diploma: encontraram acolhimento, amizades improváveis e até um certo amor pelo chimarrão.

De “galinha ciscando” ao rei da diversidade

Quem olha hoje para Kauã Fernandes, 22, que fez sucesso sambando no Carnaval de Cachoeira do Sul, talvez nem imagine que tudo começou com passos desajeitados e muitas risadas. Estudante de Engenharia de Transportes e Logística, o baiano chegou ao Rio Grande do Sul carregando sonhos, saudade da família e uma descoberta inesperada: a paixão pelo frio gaúcho. “Aqui a gente vive as quatro estações de verdade. Lá na Bahia é calor… e mais calor”, brinca.
 
A adaptação não foi simples. Entre a distância de casa e a rotina completamente diferente, ele encontrou apoio na irmã, que também estuda na UFSM, e no carinho dos cachoeirenses. Em 2024, durante as enchentes que atingiram o estado, Kauã atuou como voluntário ajudando famílias desabrigadas. Foi ali que nasceram amizades que mudariam completamente sua trajetória na cidade.
 
No ano seguinte, veio o convite inesperado: participar do concurso da corte do Carnaval. O problema? O samba ainda não era exatamente seu ponto forte. “No começo eu parecia uma galinha ciscando. Totalmente sem ritmo”, diverte-se. Mas o sangue baiano falou mais alto. Aprendeu a coreografia, conquistou o público e venceu o concurso, tornando-se representante da diversidade do Carnaval cachoeirense. “Foi uma das experiências mais absurdas e incríveis da minha vida”, resume.

O cuscuz virou artigo de luxo
 
Se existe algo capaz de gerar indignação em um nordestino longe de casa, talvez seja o preço do cuscuz no supermercado. E Tanane Fernandes, 26, estudante de Arquitetura e Urbanismo e irmã de Kauã, descobriu isso rapidamente. “No início eu nem encontrava cuscuz aqui. Agora até encontro, mas virou quase artigo de luxo”, brinca.
 
Para matar a saudade da Bahia, ela recorre ao axé. Mas engana-se quem pensa que ela não mergulhou de vez na cultura gaúcha. Hoje, já toma chimarrão, arrisca passos de dança tradicionalista e faz questão de trocar referências culturais com os amigos do Sul. “Eu aprendo com eles e eles aprendem comigo”.
 
Assim como o irmão, Tanane também participou da corte do Carnaval de Cachoeira do Sul e saiu com faixa e coroa: conquistou o título de princesa. E foi justamente depois de um jogo de vôlei que viveu uma das cenas mais engraçadas desde que chegou à cidade. Durante a partida, uma torcedora extremamente empolgada resolveu puxar um coro improvisado: “Princesa! Princesa! Vai que é tua!”, e o time venceu. O pós-jogo virou quase um workshop improvisado de samba. “A missão final era ensinar ela a sambar”, lembra, aos risos.
 


“Faço questão de aprender a cultura local e também compartilhar a minha”, conta Tanane, que está há 7 anos morando em Cachoeira.

A carioca que virou “corredora olímpica”


“O Sul era a única região do Brasil que eu ainda não conhecia. Hoje, sou apaixonada pela
identidade deste lugar”, fala Camila, que está há 4 anos na cidade.
 
Natural do Rio de Janeiro, Camila Queiroga, 22, trocou o ritmo acelerado da cidade maravilhosa pela tranquilidade de Cachoeira do Sul para cursar Arquitetura e Urbanismo. E o impacto foi imediato: frio intenso, ruas silenciosas e uma nova percepção sobre cidade, pertencimento e vulnerabilidade urbana.
 
As enchentes de 2024, inclusive, influenciaram diretamente seu olhar acadêmico e se transformaram em tema de estudo. “Passei de alguém que não entendia o comportamento das águas para uma pessoa muito mais sensível ao espaço urbano e às pessoas”, conta.
 
Hoje, Camila diz que prefere a calmaria cachoeirense ao caos carioca. Acostumada a viver em um dos estados com maiores índices de violência do país, ela ainda se impressiona com algo simples: “Aqui as pessoas fazem tudo a pé”.
 
Mas nem toda caminhada termina exatamente como planejado. Em uma noite, tentando criar um “atalho inteligente”, acabou entrando em uma rua completamente escura e deserta. “Eu atravessei correndo igual atleta olímpica. Por fora parecia treino. Por dentro era puro desespero”, diverte-se.





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