Quem olha hoje para Kauã Fernandes, 22, que fez sucesso sambando no Carnaval de Cachoeira do Sul, talvez nem imagine que tudo começou com passos desajeitados e muitas risadas. Estudante de Engenharia de Transportes e Logística, o baiano chegou ao Rio Grande do Sul carregando sonhos, saudade da família e uma descoberta inesperada: a paixão pelo frio gaúcho. “Aqui a gente vive as quatro estações de verdade. Lá na Bahia é calor… e mais calor”, brinca.
A adaptação não foi simples. Entre a distância de casa e a rotina completamente diferente, ele encontrou apoio na irmã, que também estuda na UFSM, e no carinho dos cachoeirenses. Em 2024, durante as enchentes que atingiram o estado, Kauã atuou como voluntário ajudando famílias desabrigadas. Foi ali que nasceram amizades que mudariam completamente sua trajetória na cidade.
No ano seguinte, veio o convite inesperado: participar do concurso da corte do Carnaval. O problema? O samba ainda não era exatamente seu ponto forte. “No começo eu parecia uma galinha ciscando. Totalmente sem ritmo”, diverte-se. Mas o sangue baiano falou mais alto. Aprendeu a coreografia, conquistou o público e venceu o concurso, tornando-se representante da diversidade do Carnaval cachoeirense. “Foi uma das experiências mais absurdas e incríveis da minha vida”, resume.
O cuscuz virou artigo de luxo
Se existe algo capaz de gerar indignação em um nordestino longe de casa, talvez seja o preço do cuscuz no supermercado. E Tanane Fernandes, 26, estudante de Arquitetura e Urbanismo e irmã de Kauã, descobriu isso rapidamente. “No início eu nem encontrava cuscuz aqui. Agora até encontro, mas virou quase artigo de luxo”, brinca.
Para matar a saudade da Bahia, ela recorre ao axé. Mas engana-se quem pensa que ela não mergulhou de vez na cultura gaúcha. Hoje, já toma chimarrão, arrisca passos de dança tradicionalista e faz questão de trocar referências culturais com os amigos do Sul. “Eu aprendo com eles e eles aprendem comigo”.
Assim como o irmão, Tanane também participou da corte do Carnaval de Cachoeira do Sul e saiu com faixa e coroa: conquistou o título de princesa. E foi justamente depois de um jogo de vôlei que viveu uma das cenas mais engraçadas desde que chegou à cidade. Durante a partida, uma torcedora extremamente empolgada resolveu puxar um coro improvisado: “Princesa! Princesa! Vai que é tua!”, e o time venceu. O pós-jogo virou quase um workshop improvisado de samba. “A missão final era ensinar ela a sambar”, lembra, aos risos.
“Faço questão de aprender a cultura local e também compartilhar a minha”, conta Tanane, que está há 7 anos morando em Cachoeira.
A carioca que virou “corredora olímpica”
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“O Sul era a única região do Brasil que eu ainda não conhecia. Hoje, sou apaixonada pela
identidade deste lugar”, fala Camila, que está há 4 anos na cidade.
Natural do Rio de Janeiro, Camila Queiroga, 22, trocou o ritmo acelerado da cidade maravilhosa pela tranquilidade de Cachoeira do Sul para cursar Arquitetura e Urbanismo. E o impacto foi imediato: frio intenso, ruas silenciosas e uma nova percepção sobre cidade, pertencimento e vulnerabilidade urbana.
As enchentes de 2024, inclusive, influenciaram diretamente seu olhar acadêmico e se transformaram em tema de estudo. “Passei de alguém que não entendia o comportamento das águas para uma pessoa muito mais sensível ao espaço urbano e às pessoas”, conta.
Hoje, Camila diz que prefere a calmaria cachoeirense ao caos carioca. Acostumada a viver em um dos estados com maiores índices de violência do país, ela ainda se impressiona com algo simples: “Aqui as pessoas fazem tudo a pé”.
Mas nem toda caminhada termina exatamente como planejado. Em uma noite, tentando criar um “atalho inteligente”, acabou entrando em uma rua completamente escura e deserta. “Eu atravessei correndo igual atleta olímpica. Por fora parecia treino. Por dentro era puro desespero”, diverte-se.