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Reportagens Edição 213 - Agosto de 2026

Pequenos no peso gigantes na vida


Em Pequenos Gigantes, Maria Antonia narra os bastidores de uma história real que provoca reflexões sobre prematuridade, educação inclusiva e a força necessária para reconstruir a vida diante do inesperado

A história de dois meninos que virou best-seller

 

Aos 26 anos, durante uma ecografia fetal em Porto Alegre, Maria Antonia de Franceschi Horbach, 44, deixou o consultório sem imaginar que, minutos depois, o rompimento inesperado de uma das bolsas mudaria o rumo de sua vida. Dezoito anos mais tarde, essa travessia ganha voz nas páginas de Pequenos Gigantes.

A consulta era apenas um exame para acompanhar o coração dos bebês. Grávida de gêmeos, Maria Antonia saiu da clínica com a tranquilidade de quem acabara de receber a confirmação de que tudo transcorria normalmente. Mas, ainda dentro do carro, sentiu a bolsa romper. A gestação, até então sem intercorrências, mudou de rumo em questão de minutos.

Antônio e Augusto, hoje com 18 anos, nasceram com apenas 25 semanas de gestação, quando o esperado eram 40. O que deveria marcar a nova fase da vida em família, deu lugar à solidão das incubadoras, aos avisos e alarmes constantes dos monitores e à rotina intensa de uma UTI Neonatal. Vieram meses de internação, a alta da maternidade sem os filhos nos braços e dois anos e meio divididos entre hospitais e um apartamento adaptado para dar continuidade aos cuidados intensivos em Porto Alegre.

Dezoito anos depois, Maria Antonia decidiu revisitar cada lembrança para escrever Pequenos Gigantes. A obra, que conquistou o selo de best-seller da Amazon poucos dias após o lançamento, revela, pela primeira vez, os bastidores de uma história que muitos cachoeirenses acompanharam à distância, mas que somente agora é contada por quem viveu cada espera, cada medo e cada pequena vitória.

Maria Antonia transformou uma experiência profundamente pessoal em um relato capaz de acolher outras famílias e ampliar o diálogo sobre a inclusão de crianças neurodivergentes.



União, amor e resiliência definem a trajetória da família Horbach. Na foto, Maria Antonia e o marido, Diego Horbach, 46, ambos administradores de empresas, ao lado dos filhos gêmeos, Antônio e Augusto, de 18 anos. Augusto é aluno do Colégio Barão do Rio Branco, enquanto Antônio estuda no Colégio Marista Roque.

1 - Você decidiu contar uma história extremamente íntima. Em que momento percebeu que ela não pertencia mais apenas à sua família, mas poderia transformar a vida de outras pessoas?

“Logo no início, o nosso mundo caiu. E em momentos de muita angústia, apareciam pessoas, que contavam alguma história, alguma experiência parecida, e aquilo parecia que dava uma motivação enorme para continuarmos. Anos mais tarde, em uma sessão de fonoterapia dos guris, a fono me disse: ‘Você tinha que escrever um livro’. Naquela época o envolvimento com eles era 24 horas, mesmo assim, fiquei com aquela ideia na minha cabeça. A minha mãe também sempre me incentivou, para ajudar outras famílias.

Somente no ano passado, depois de muita terapia, autoconhecimento e coragem, comecei a juntar uns esboços, ver fotos e escrever o livro. Não gostaria que o livro fosse uma história triste, de vitimismo. Mas uma história inspiradora, verdadeira, um caso real, e que abra diálogos para a educação inclusiva.”

2 - Muitas mães se identificam profundamente com o livro, mesmo sem terem vivido a prematuridade. Por que você acredita que essa história alcança tantas pessoas diferentes?

“A luta pela sobrevivência deles foi muito difícil, mas educar também é muito difícil, principalmente nos dias de hoje. Ensinar valores básicos de educação, saber o que é certo e errado, ter respeito pelos professores, colegas e pessoas mais velhas, cumprimentar, ser educado com os funcionários da escola são desafios com os quais acredito que muitas mães se identificaram. Assim como dar valor para as coisas que realmente importam. E os guris nos ensinam muito sobre isso. Quando eles tinham 7 anos de idade, fizemos uma viagem de família, com o meu sogro, minha sogra, minha cunhada e seu marido e meus dois sobrinhos. Quando voltamos perguntamos para eles o que mais gostaram, o que mais marcou na viagem, e eles responderam: Ficar todos os dias com os avós e familiares por perto. No livro eu conto outras histórias semelhantes. Nossa família toda evoluiu muito com a chegada dos guris. Eu continuo aprendendo todos os dias.”


3 - Em muitos momentos do livro, o leitor enxerga uma mãe forte. Você se sentia forte enquanto vivia tudo aquilo ou essa força só apareceu quando olhou para trás?

“Eu fui muito forte graças à minha rede de apoio familiar. Minha mãe ficou na capital comigo o tempo todo, meu pai e meu marido iam para Cachoeira trabalhar todas as semanas e voltavam aos finais de semana. Foram dois anos e meio nessa situação. Nos dias piores minha mãe estava lá para me levantar. Eu sempre tentava ficar forte por causa deles. Se eu não cuidasse deles, quem iria cuidar?”

4 - Você escreve sobre dias em que o mundo seguia normalmente enquanto a sua vida parecia suspensa. O que essa experiência te ensinou? 

“Fiquei 2 anos e meio na capital, longe da minha casa, do meu trabalho em Cachoeira, do meu marido, de familiares e amigos. Mas a minha casa, naquele momento, era onde os guris estavam. Teve um momento, quando eles ainda estavam na UTI Neonatal, que uma médica disse para eu ir para Cachoeira visitar minha casa. Eu pensei: ‘Essa médica não deve estar falando sério’. Eu me sentia culpada de ir dormir de noite no apartamento. Sempre fiquei o máximo de tempo possível com eles.” 


5 - Em meio a tantas decisões difíceis, como vocês conseguiram preservar o casamento e continuar sendo parceiros?

“Quando estávamos na UTI Pediátrica, me informaram que 70% dos casais se separavam nesta situação. Na época, eu nem conseguia pensar em nada, somente na sobrevivência dos guris. O Diego foi muito forte em ter continuado nessa jornada. Vi muitas mães sozinhas nessas UTIs. Com o passar dos anos, nossa relação foi evoluindo e se fortalecendo. Tudo passa. Crescemos juntos. Superamos as fases difíceis.” 


6 - Em que momento você percebeu que sua luta deixava de ser apenas pela saúde dos seus filhos e passava a ser também pela inclusão de tantas outras crianças?

“Eu não sabia que a inclusão escolar seria tão difícil. Mesmo nos dias de hoje, ainda existe muita falta de treinamento para professores, monitores e funcionários da escola. Preconceito ou falta de entendimento de algumas famílias também. Tudo que fizemos de descobertas e melhorias no colégio deixamos de aprendizado para outras crianças. Mas descobri que estas crianças não têm voz, são deixadas de lado por não atenderem os requisitos acadêmicos. Tem escolas que não enxergam o potencial humano que estas crianças possuem. Muito se fala em inteligência emocional, mas pouco se faz. E a sociedade está adoecendo. É inevitável não refletir sobre os desafios das mães em gerações passadas, que viviam em um cenário de desinformação e sob o peso de um preconceito ainda mais acentuado.”


7 - Em poucos dias, seu livro conquistou o selo de best-seller da Amazon. Você imaginava que sua história teria uma repercussão tão grande?

“Não imaginava. Fico muito feliz em poder ajudar outras famílias e sensibilizar profissionais da área da saúde e educação. No livro eu falo sobre a importância dos professores. Mais que ensinar, eles constroem o futuro. Acredito que a escola, reforça os valores ensinados em casa. É o local de aprender, errar e corrigir. E, infelizmente, a educação ainda não é prioridade no nosso país.”


8 - Como o Augusto e o Antônio estão vivendo esse carinho dos leitores e a experiência de distribuir autógrafos?

“Eles estão adorando. Acho que eles ainda não têm noção da intensidade de tudo que passaram. São meus heróis. Que sirvam de exemplo para outras pessoas.”






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