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Reportagens Edição 212 - Julho de 2026

Empréstimo ou cilada?


“Ao contratar um crédito e desconfiar de abusividade, saiba que o contrato pode ser questionado judicialmente. Cada situação possui particularidades e exige avaliação especializada”, diz Ingrid Mariano

Os juros que ninguém vê 

 

Em algum momento da vida, quase todo mundo já pensou: “Vou resolver isso com um empréstimo”. E é justamente aí que mora o perigo. Na pressa de aliviar o orçamento, muita gente olha apenas para o valor da parcela ou para a famosa “taxa baixinha” anunciada em letras gigantes. O problema? O verdadeiro custo da dívida costuma aparecer depois.
 

Segundo a advogada Ingrid Mariano, 30, que atua há quatro anos nas áreas de Direito Bancário e Previdenciário, um dos erros mais comuns do consumidor é ignorar o chamado Custo Efetivo Total (CET). “Pelo Código de Defesa do Consumidor, toda pessoa tem o direito de saber exatamente quanto vai pagar até a última parcela”, alerta. E é justamente o CET que revela essa verdade completa.
 

O que o banco nem sempre destaca
 
O CET funciona como o “preço real” do empréstimo. Ele reúne tudo o que será pago ao longo do contrato: juros, IOF, tarifas administrativas, seguros embutidos e outras cobranças que muitas vezes passam despercebidas. Na prática, aquele empréstimo aparentemente simples pode se transformar em uma dívida muito maior do que o esperado. E, segundo Ingrid, existem três modalidades que frequentemente acabam virando protagonistas de disputas judiciais.

Consignado: a parcela que desaparece antes do salário cair
 
O empréstimo consignado costuma seduzir pelas taxas mais baixas. Afinal, o desconto é feito diretamente na folha de pagamento ou no benefício do INSS, o que reduz o risco para os bancos.
 
Mas existe um outro lado dessa história. “Quando o desconto acontece automaticamente, muitas famílias acabam perdendo o controle do próprio orçamento”, explica Ingrid. Ela alerta ainda para situações delicadas envolvendo idosos e pensionistas, como refinanciamentos feitos sem o devido esclarecimento e até contratações indevidas.
 
Empréstimo pessoal: o contrato cheio de letras miúdas
 
Aqui, o risco geralmente aparece escondido nos detalhes. Taxas elevadas, seguros embutidos sem autorização e cobranças administrativas pouco transparentes são algumas das armadilhas mais frequentes.

A famosa “venda casada” continua sendo uma das principais reclamações. “A pessoa acredita que está contratando apenas um empréstimo, mas descobre depois que existem diversos serviços incluídos sem necessidade”, comenta. Resultado: a dívida cresce silenciosamente.

Financiamento de veículos: quando o carro custa muito mais do que parece
 
No caso dos financiamentos, o erro clássico é pensar apenas na parcela mensal. “O consumidor olha se cabe no bolso naquele momento, mas nem sempre calcula quanto realmente pagará pelo veículo no fim do contrato”, explica a advogada.
 
E os riscos vão além do valor final. Cláusulas de atraso, juros moratórios e a possibilidade de busca e apreensão do veículo exigem atenção redobrada antes da assinatura.
 
Informação é o verdadeiro superpoder
 
Na avaliação de Ingrid Mariano, a maior armadilha do mercado de crédito ainda é a falta de transparência. Na correria do dia a dia, principalmente em contratações feitas pelo celular ou por telefone, muitas pessoas acabam aceitando contratos sem compreender exatamente o que estão assinando.
 
“Você tem direito à informação clara antes de fechar qualquer contrato. Pode e deve tirar dúvidas, pedir detalhamento de cobranças e entender exatamente o que está pagando”, reforça. Porque, no universo financeiro, a diferença entre solução e problema pode estar justamente nas linhas que quase ninguém lê.





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