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Reportagens Edição 212 - Julho de 2026

Os bastidores do reencontro com a história


Como um projeto que parecia impossível devolveu à Fenarroz um dos seus maiores símbolos depois de 8 anos

 

 

Durante oito anos, a Fenarroz seguiu sem soberanas. Para muitos, era apenas uma tradição interrompida. Para Pablo Siqueira, era um pedaço da identidade de Cachoeira do Sul que precisava voltar a existir. O que o público viu no palco, em maio deste ano, foi um espetáculo elegante e emocionante. O que quase ninguém viu foram meses de decisões difíceis, noites sem dormir, vários profissionais envolvidos e um trabalho minucioso que transformou um sonho em realidade. Dois meses depois, a revista Linda revela os bastidores de um dos projetos culturais mais marcantes dos últimos anos na cidade.

 

Tudo começou com uma pergunta
 
A ideia nasceu muito antes de ganhar forma. Como maquiador, Pablo Siqueira, 31, costumava receber soberanas de diferentes municípios e uma pergunta passou a acompanhá-lo: “Por que Cachoeira do Sul não tem mais concurso?”. A inquietação permaneceu por anos até encontrar o momento certo. Quando a Fenarroz demonstrou interesse em resgatar a tradição, começou uma das maiores mobilizações já realizadas em torno das soberanas da feira.
 
A corrida contra o tempo
 
O maior desafio não foi criar um concurso. Foi viabilizá-lo. Levantar recursos, conquistar patrocinadores, formar equipes, recuperar acervos, produzir novos vestidos, organizar ensaios, preparar candidatas e estruturar um espetáculo praticamente do zero. Em pouco mais de um mês e meio, dezenas de reuniões e ensaios transformaram uma ideia em um evento que emocionou a cidade. Ao todo, cerca de 40 pessoas trabalharam direta e indiretamente na realização do concurso.
 
Vestidos que quase se perderam no tempo
 
Pouca gente imagina o estado em que parte do acervo histórico da Fenarroz foi encontrado. Vestidos apresentavam manchas provocadas pelos anos, bordados desfeitos e tecidos bastante deteriorados. A recuperação exigiu aproximadamente 30 litros de diferentes produtos de limpeza, além de peças que precisaram ser lavadas mais de três vezes até recuperarem a aparência desejada. Os bordados foram restaurados por Inar Bulsing, enquanto Jussara Dutra realizou os ajustes necessários para devolver vida às peças.
 
Hoje, mais de 200 itens (entre vestidos de gala, vestidos de passeio, saias, blusas e acessórios) passaram a integrar um acervo sob a curadoria de Pablo Siqueira. A ideia é que, futuramente, todo esse patrimônio ganhe um espaço permanente de exposição dentro da Fenarroz.
 
O tesouro que estava escondido em um cofre



Talvez o momento mais surpreendente de toda a preparação tenha acontecido cerca de um mês antes do concurso. Até então, os novos vestidos seriam assinados pelo próprio Pablo. Mas os planos mudaram completamente quando a Fenarroz lhe entregou um presente inesperado: os croquis originais criados por Roberto Raiffone em 2012, guardados durante anos no cofre da feira e jamais executados.
 
Raiffone, um dos maiores nomes da alta-costura gaúcha e responsável pelos trajes das soberanas durante 16 edições da Fenarroz, havia falecido em 2013. Seus últimos desenhos permaneciam inéditos. Diante desse legado, Pablo abandonou seu próprio projeto e decidiu transformar aqueles traços em realidade, respeitando fielmente a estética imaginada pelo estilista.

A conexão com Porto Alegre
 
A história ganhou um capítulo ainda mais simbólico durante a busca pelos tecidos. Na capital gaúcha, Pablo descobriu quem era a família responsável pelos tradicionais plissados utilizados por Roberto Raiffone. Ao entrar em contato com eles, ouviu uma reação inesperada. Emocionado, Luciano, filho do casal que produzia os trajes, aceitou na mesma hora participar do projeto. Décadas depois, a mesma família voltava a confeccionar plissados inspirados na obra do estilista cachoeirense.
 
Seis profissionais. Três vestidos. Poucas semanas
 
Os novos trajes nasceram como uma verdadeira operação de precisão. Enquanto Jussara Dutra confeccionava as peças, Inar Bulsing executava os bordados e Marina Crapanzani realizava as pinturas manuais. Ao todo, seis profissionais trabalharam simultaneamente em diferentes etapas, muitas vezes em locais distintos. Cada vestido percorria um caminho próprio: costura, pintura, bordado e montagem final. Tudo precisava acontecer quase ao mesmo tempo para vencer o curto prazo.

O segredo foi mantido até o último instante

Nem mesmo as soberanas conheciam os vestidos. Todas as provas aconteceram com elas vendadas. As candidatas desconheciam os modelos, as cores e até os detalhes das peças. O primeiro contato com os vestidos completos ocorreu apenas durante as fotos oficiais, um dia antes do Baile de Coroação.


O espetáculo que encantou a cidade
 
A parte artística tornou-se um dos grandes diferenciais do concurso. Mariana Nunes assinou as coreografias, Guilherme Moreira conduziu toda a preparação de passarela, Cris Caetano desenvolveu as imagens digitais projetadas durante o espetáculo, Robertinho Giuliani criou a iluminação cênica e Rosane Giuliani foi responsável pela decoração do palco.
 
Um dos momentos mais emocionantes da noite reuniu 23 modelos em um desfile especial em homenagem a Roberto Raiffone. Todos aceitaram o convite imediatamente.


Mais nomes de bastidores
 
Pablo também contou com o apoio fundamental de grandes amigos durante toda a organização, como Marcele Tonet, Henrique Santos, Bianca Nunes, Lutiane Schumacher e do seu companheiro Augusto Costa.
 
A confiança e o apoio do presidente da Fenarroz, Rogério Brandt, e da vice, Carina Dutra, foram decisivos para todo este sucesso. 

O baile nasceu em menos de um mês
 
Inicialmente, haveria apenas o concurso. Mas conforme os vestidos ganhavam forma, Pablo percebeu que aquele trabalho merecia um encerramento à altura. Em menos de um mês nasceu o Baile de Coroação, realizado poucos dias depois.
 
Outro detalhe carregado de simbolismo emocionou quem conhece a história da Fenarroz: a decoração foi realizada de forma totalmente voluntária por Liziane Larrondo, responsável também pelo último baile das soberanas, realizado em 2012. Quatorze anos depois, ela voltou para ajudar a escrever o capítulo do retorno.


 

 
Uma agenda intensa
 
Depois da eleição, a rotina da corte foi acelerada. Em poucas semanas, as soberanas cumpriram cerca de 20 compromissos oficiais, entre entrevistas em rádios, participação na RBS, eventos dentro e fora da cidade e ações de divulgação da feira. Somente nos preparativos de beleza foram aproximadamente 100 horas de salão, contabilizadas até o encerramento da Fenarroz.

Muito além de um concurso
 
Quando as luzes do palco se apagaram, não terminou apenas um evento. Terminou um projeto que devolveu à Fenarroz um dos seus maiores símbolos e resgatou uma tradição interrompida por mais de uma década.
 
“Sem pensar duas vezes, faria tudo novamente”, resume Pablo. “Hoje mudaria muitas coisas porque aprendi muito, mas ver aquele palco acontecer compensou cada noite sem dormir”.
 
Talvez seja justamente esse o maior legado deixado pelo concurso: provar que grandes projetos nunca são construídos por uma única pessoa, mas por dezenas de mãos que acreditam na mesma ideia. Em Cachoeira do Sul, o retorno das soberanas foi muito mais do que um concurso de beleza. Foi o reencontro de uma cidade com parte da sua própria história.

As guardiãs de um legado
 
Com elegância, carisma e representatividade, elas assumiram a missão de conduzir uma tradição que renasceu para escrever um novo capítulo na história da Fenarroz. 
 
São elas: a Rainha Mariana Heiderich, 19, estudante, e as princesas Luiza Keller, 24, médica veterinária, e a estudante Mariana Alves, 25, tecnóloga em Comércio Exterior.





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