A moda da Invisibilidade

“Ser discreta no virtual também é autocuidado, para fugir das comparações.” Emilly Oliveira, estudante
A geração que nasceu “conectada”está atrás de privacidade
Se você der uma olhada no perfil de um jovem nas redes sociais hoje, pode ser que encontre o vazio. Mas não é por falta de internet ou tempo. Batemos um papo com a Emilly, a Alissa e a Kamilly, que mandaram a real sobre o assunto.
O “detox” necessário
Para Emilly Oliveira,17, ser discreta nas redes virou uma questão de sobrevivência emocional. Ela vê o estilo low profile como uma forma de autocuidado para fugir da comparação, especialmente entre as mulheres: “Não é só sobre postar menos, é sobre sair daquele ciclo meio cansativo de comparação, validação e necessidade de mostrar que tá tudo sempre bem. Funciona muito como um ‘detox’ mesmo: menos pressão para performar uma vida perfeita”, explica Emilly.
Ela também destaca o cansaço da exposição e a mudança de público: o Facebook virou um “arquivo de memórias” ou lugar para a família, o que fez a galera jovem migrar ou simplesmente reduzir a presença on-line. “Ser low profile hoje parece menos sobre ‘sumir’ e mais sobre escolher melhor o que vale a pena mostrar”.
No Insta, só o que for aesthetic

“O Instagram virou vitrine de perfeição.”
Alissa Stracke, estudante
Já Alissa Stracke, 14, analisa que o dilema é a perfeição, ou seja, para ela o Instagram virou uma vitrine: “No Insta não posto muito pela indecisão, por ser postagens ‘perfeitas’ ou sempre algo bonito”.
Para ela, o Facebook também já era, por não ser mais usado pelos amigos. Onde o papo flui de verdade agora é no TikTok, onde ela consegue expressar suas ideias sem tanta pressão estética.
Facebook é “rede de gente velha”

“Exposição demais é algo desnecessário.”
Kamilly Vargas, estudante
A Kamilly Vargas,15, traz o papo para o lado da segurança. Para ela, o Facebook virou um terreno “ultrapassado” e perigoso: “Sempre tem homens mais velhos que vão estar lá olhando e chamando no messenger com papo furado”.
Kamilly alerta para o cyberbullying e defende que o respeito próprio vem antes de qualquer curtida. “Não acho que seja necessário eu me expor para me sentir melhor”, diz ela, que prefere postar nos stories do Instagram apenas momentos reais, como sorrisos, o carinho com a mãe, os irmãos e o seu gatinho.
A QUE DIZ A ESPECIALISTA
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“O jovem está abandonando a imagem idealizada, buscando mais por autenticidade.”
Jociane Stracke, psicóloga
Para entender o que está por trás dessa “fuga” do excesso de exposição, conversamos com a psicóloga Jociane Stracke, 55, com 23 anos de profissão. Ela analisa o fenômeno como um movimento de amadurecimento emocional dos jovens.
Segundo ela, ser low profile é uma maneira de “restabelecer fronteiras mais saudáveis”. Os jovens estão buscando ser reconhecidos como “sujeitos” e não apenas como uma “imagem”. “O jovem diminui a distância de quem ele é e do que deveria ser, com um ‘eu imperfeito, porém estruturado’, abandonando a imagem idealizada”, explica a psicóloga.
Para Jociane, ao trocar a quantidade de conexão pela qualidade e verdade, o jovem deixa de buscar aprovação e validação externa para focar em experiências reais. Também para reforçar o vínculo com a sua “tribo” ou grupo de identidade.
Outros fatores que fazem com que os jovens optem pela invisibilidade
A estética do vazio
Você já entrou em um perfil e não encontrou nenhuma foto? Bem-vindo ao “Feed zero”. Essa tendência de manter o perfil limpo ou apagar posts antigos é o escudo definitivo contra o julgamento. No “Feed zero”, o jovem retoma o controle da sua narrativa: ninguém pode tirar conclusões sobre você se você não der o material para isso.
O rastro que ninguém quer deixar
A consciência sobre a privacidade mudou. O medo de um rastro digital permanente, que pode ser julgado por algoritmos ou futuros recrutadores, fez os jovens trocarem o “para sempre” do feed pelo “agora” dos conteúdos efêmeros. Se vai sumir em 24 horas, a pressão é menor. É o direito ao esquecimento sendo praticado no dia a dia.
A “fadiga do like” e o refúgio mental
Não é segredo que manter uma vida perfeitamente curada cansa, a pressão pela estética impecável se tornou um gatilho de ansiedade. Para muitos, a saída foi o consumo passivo: eles continuam on-line, observando e aprendendo, mas pararam de performar. O silêncio digital tornou-se um novo sinônimo de saúde mental.
O fim da “vida de comercial de margarina”
A era dos filtros excessivos e das vidas editadas está perdendo o brilho. Em vez de grandes audiências, a valorização da autenticidade agora foca em grupos menores, a preferência atual é compartilhar o real, o cru e o imperfeito com quem realmente importa, deixando de lado a necessidade de aprovação de desconhecidos.
O veredito: menos é mais
O resumo da ópera? A juventude está mais ligada do que nunca. O Facebook? Flopou (virou lugar de família e memórias). O Instagram? É para ser bonito. O TikTok? É para se expressar.
Seja para evitar comparações, como diz Emilly, ou para se proteger, como alerta Kamilly, ou apenas para ter menos pressão estética, como pontuou Alissa, a regra de ouro é o equilíbrio. Afinal, a vida real acontece muito mais fora dos stories do que dentro deles.
DICIONÁRIO DA “GERAÇÃO Z”
Low Profile: Alguém que é discreto, posta pouco e prefere a privacidade.
Aesthetic: Algo visualmente bonito, estiloso ou que segue um padrão visual.
Detox Digital: Período de pausa ou redução do uso de redes sociais para desestressar.
Performar: Tentar mostrar uma vida ou uma imagem que nem sempre condiz com a realidade.
Flopou: Algo que perdeu o sucesso ou ficou “velho”.
Stories: Fotos e vídeos que somem depois de 24 horas.
Feed Zero: Perfil em redes sociais sem postagens.
Cyberbullying: Uso de redes sociais ou mensagens para intimidar, humilhar ou perseguir alguém de forma intencional e repetitiva, considerado crime virtual.