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Reportagens Edição 211 - Maio de 2026

Mulheres de farda


“ A verdadeira realização vem quando olhamos para nossa trajetória e vemos que perseveramos, aprendemos e seguimos firmes no propósito”. Andressa Gall Carneiro

Elas mostram que força e sensibilidade podem andar juntas

 

 

Antes de vestir a farda, existe um caminho exigente a ser percorrido. Para ingressar na Polícia Militar e na Polícia Civil, as mulheres enfrentam uma seleção rigorosa que vai muito além da força física. O TAF (Teste de Aptidão Física) cobra resistência e disciplina, enquanto os exames de saúde e, principalmente, a avaliação psicológica, colocam à prova o equilíbrio emocional necessário para lidar com situações de risco.
 

Mas é depois da aprovação, que começa uma das fases mais intensas: o curso de formação básica, que costuma durar entre nove e 12 meses. É nesse período que a rotina muda completamente. Treinos, disciplina, pressão e aprendizado constante fazem parte do dia a dia. E não há diferença entre homens e mulheres! As exigências são as mesmas, e os desafios também. Em Cachoeira do Sul, as policiais femininas se destacam e compartilham curiosidades sobre suas rotinas de trabalho.

 

Andressa Gall

“Trabalhei por sete anos em Porto Alegre, e as experiências mais difíceis foram os confrontos armados. Recordo de um em específico. Eu tinha acabado de voltar da licença maternidade e minha viatura foi alvejada 22 vezes em uma única ocorrência. Guardo essas fotos, recordo e penso sempre no quanto Deus esteve ao meu lado. Acho que só tive a real noção da proporção quando cheguei em casa e olhei para o meu filho, que tinha sete meses na época”, relembra Andressa Catiucia Gall Carneiro, 32.
 

Policial militar há 14 anos, ela ingressou quando tinha apenas 18. Hoje, ela acredita que já conquistou espaço e respeito dentro da corporação. “A mulher tem um olhar, uma sensibilidade e uma percepção diferente. Isso é inegável! A mulher que precisa ser firme e se impor, é a mesma que acolhe com atenção e cuidado. Em Cachoeira, atuei na Patrulha Maria da Penha. Juntamente com dois colegas, fomos os pioneiros na implementação deste serviço tão importante e necessário”, conta.
 

Atualmente, Andressa faz parte do Comando Ambiental da Brigada Militar, e se orgulha da excelência, responsabilidade e comprometimento do serviço que presta. “O crescimento pessoal que a minha profissão me proporciona é a minha maior realização. Mas fora da corporação, sou a Andressa filha de Deus, esposa do Michel, 45 anos, mãe do Davi, 9 anos e do Noah, recém nascido, e líder de célula de mulheres da Igreja Embaixadores de Cristo. Hoje vivo o chamado de Deus na minha casa e meu objetivo é levar o amor e a verdade Dele para outras mulheres. Minha maior alegria é participar da obra de Deus”, afirma.

 

Gabriele Simonetti

“A mulher costuma ter mais sensibilidade e uma escuta mais cuidadosa para entender o que não está sendo dito,
e isso muda completamente a forma de abordar a situação”. 

Gabriele Simonetti Gossling

Para Gabriele Simonetti Gossling, 39, policial militar há 16 anos, o preparo emocional é o que realmente sustenta o dia a dia na profissão. “A gente lida com pressão, risco, situações imprevisíveis. E precisamos estar prontas para agir com responsabilidade e clareza. Para mim, o mais desafiador é conseguir ser firme em ocorrências difíceis, sem perder a sensibilidade. Porque por trás de cada situação, tem pessoas e histórias”, declara.
 

Na sua memória, está guardada uma ocorrência atendida no verão de 2023, durante a Operação Golfinho, em Imbé. “Um bebê tinha se afogado com leite materno. Quando cheguei, ele já estava em parada cardiorrespiratória. Naquele momento, a gente não pensa, a gente age, é como uma experiência fora do corpo. Comecei a reanimação e segui fazendo massagem até chegar na policlínica. Conseguimos reanimá-lo, mas ele ficou internado na UTI e no dia seguinte veio a notícia de que ele não resistiu. A gente faz tudo o que está ao alcance, mas nem sempre o resultado depende só de nós”, recorda.
 

Sobre exercer uma profissão predominantemente masculina, Gabriele conta que quando ingressou, em 2009, essa diferença era ainda mais evidente. “Mas eu nunca vi isso como barreira, sempre vi como oportunidade para mostrar capacidade”, diz. Para além da farda, ela valoriza estar com a família, cuidar da espiritualidade e da saúde. “Sou mãe da Maria Luiza, 22, e da Isabelle, 14, e isso é uma parte muito importante de quem eu sou, porque é com elas que eu me reconecto e deixo meu lado humano falar mais alto”, diz. Quando olha para trás, sente orgulho da consistência que construiu ao longo de tantos anos de dedicação e aprendizado. “Tenho orgulho da profissional que me tornei e do exemplo que eu deixo dentro e fora de casa, ao mostrar que dá para ocupar esse espaço com respeito, postura e coragem”, define.

 

Lucielle Schaf


“Cada mulher que veste a farda ajuda a abrir caminho para que outras
também se sintam capazes de seguir essa carreira”. 

Lucielle Schaf

Para a inspetora da Polícia Civil há 11 anos, Lucielle Schaf, 36, as ocorrências que envolvem pessoas em situação de vulnerabilidade são as mais difíceis emocionalmente. “Precisamos tomar decisões rápidas, muitas vezes sob pressão. A parte mais desafiadora é justamente manter esse equilíbrio entre a firmeza necessária para agir, mas também a sensibilidade para entender. É agir com profissionalismo, sem perder a humanidade”, destaca.
 

Para desempenhar o papel com tanta versatilidade, ela aposta em cuidados simples, mas essenciais. “Fora da profissão, gosto de estar com a família, cuidar de mim, praticar exercícios físicos e aproveitar atividades do dia a dia. Essa rotina é o que me permite voltar ao trabalho com mais foco e disposição”, revela.
 

Para ela, o sentimento que prevalece ao longo de toda a sua trajetória é o orgulho, por representar tantas outras mulheres que estão conquistando seu espaço e mostrando que coragem, competência e dedicação não têm gênero. “Na época em que ingressei na carreira, há 11 anos, a profissão passou a ter uma presença feminina mais significativa. Em ocorrências que envolvem violência doméstica, crianças ou pessoas em situação de vulnerabilidade, a presença de uma policial mulher gera mais confiança e acolhimento. A vítima se sente mais à vontade para pedir ajuda e explicar os fatos. Entendo que vestir a farda é um compromisso diário com a população”, declara.

 

Aline Doleski


“Tenho imensa gratidão por poder ajudar ao próximo, proteger e
orientar por meio da minha profissão".

Aline Doleski

Na vida da Aline Doleski Ribeiro Domingues, 40, policial militar há 17 anos, os desafios vão além da profissão. “Conseguir conciliar a carreira, dar conta da vida pessoal e familiar, e ainda ser mãe de um filho com autismo severo, exige de mim um grande esforço”, diz. Ela é mãe do Théo, de oito anos, o qual requer cuidados especiais diários na escola e nas terapias ocupacionais. “Ele é uma criança muito amorosa e amada por todos. Sou uma mulher que valoriza a família e que aprendeu muito com a vida. Hoje, sou vaidosa. Perdi 56 quilos e entendi que precisava manter uma vida saudável e feliz”, conta.

 

Dentre as experiências da profissão, Aline destaca uma ocorrência que atendeu em 2009, em Porto Alegre. “O agressor da vítima estava no local. Depois que chegamos, ela desistiu de ser socorrida e de denunciá-lo. Ela estava toda machucada, sangrando, com um bebê no colo; e mesmo assim, implorava para que não levássemos o agressor”, relembra.
 

De tudo o que já vivenciou, ela destaca o orgulho gratificante que sente ao romper tabus da história, sendo uma policial feminina em um meio ainda dominado por homens. “Ao longo do tempo, as mulheres têm provado seu valor e conhecimento. Conseguimos demonstrar força e respeito e, ao mesmo tempo, ter um olhar mais delicado para as situações. Transmitimos calma e leveza, especialmente em ocorrências que envolvem crianças e mulheres”, afirma.

 

Daiana Flores


“Mesmo com avanços, ainda enfrentamos estereótipos que associam essa área apenas à força física, deixando
em segundo plano habilidades 
igualmente importantes, como inteligência, estratégia e comunicação”. 

Daiana Flores

Para a comissária de polícia Daiana Flores, 46, que tem 18 anos de atuação, o preparo físico para ingressar na polícia é intenso e exige uma rotina de treinos voltados para resistência e força. Contudo, ela considera o aspecto emocional como fator determinante. “A avaliação psicológica é rigorosa, longa e mentalmente desgastante”, diz.
 

Ela recorda um dos momentos mais desafiadores da sua carreira, vivenciado logo no segundo mês após assumir o cargo. “Participei da investigação de um homicídio qualificado bastante complexo. Além da responsabilidade profissional, o caso exigiu muitas horas extras de trabalho e contato com conteúdos sensíveis, de forte carga emocional. Pude sentir na prática a dificuldade de separar a vida profissional da pessoal. Hoje, aprendi a preservar minha saúde emocional e minha qualidade de vida”, diz.
 

“De lá para cá, muitas mudanças aconteceram e a instituição também passou a se estruturar melhor para receber as mulheres. Hoje, contamos com uniformes e coletes adaptados ao corpo feminino, além de cursos de aperfeiçoamento ministrados por instrutoras”, afirma.
 

Fora da Polícia Civil, Daiana é uma pessoa simples e discreta, que valoriza profundamente a família. “Os momentos com eles são fundamentais e me dão a força necessária para enfrentar o dia a dia de uma delegacia”, declara. 






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