Dos muros de Cachoeira para a Europa

“Quando as professoras faziam a atividade de desenhar a profissão que a gente queria ter quando crescesse, eu me desenhava pintando uma tela em um cavalete”. Marina Lucas Crapanzani.
Marina Crapanzani é uma artista incrível
Para quem vive da arte, o mundo costuma ser percebido com outra intensidade. Cores, formas e detalhes que passam batido para muitos, acabam se transformando em linguagem, memória e expressão. No caso da cachoeirense Marina Lucas Crapanzani, 32, essa sensibilidade acompanha sua história desde a infância, quando ainda muito pequena, já encontrava na pintura uma forma natural de olhar e traduzir o mundo ao seu redor.
Hoje, ela soma uma década pintando paredes, transformando muros, vitrines e espaços urbanos em telas vivas. E neste ano, Marina tem a oportunidade de consolidar ainda mais o seu trabalho, aceitando o convite para pintar na Europa. Ela embarca no mês de maio. “Fui contratada por um casal para fazer a pintura de praticamente toda a casa. Eles chegaram até mim por meio de um vídeo que um cliente publicou, mostrando o meu trabalho”, conta. Esse grande passo em sua carreira revela não apenas o ofício de quem pinta, mas o olhar sensível e a expressão criativa de uma artista que carrega, em cada traço, um pedaço de si mesma.
Quando, onde e qual foi a tua primeira pintura?
“Eu iniciei nas aulas do Atelier Livre Municipal de Cachoeira do Sul por volta dos anos 2000. Quando criança, reproduzi duas pinturas que vi lá e que me marcaram bastante. Uma delas é uma releitura. O quadro está exposto onde minha mãe mora. Ela foi a primeira pessoa a dizer que eu tinha o dom, além da professora Cida, do cursinho, que também fazia comentários sobre isso”.
Quando resolveu encarar a arte como profissão?
“Venda de quadros sempre me pareceu um caminho com muitas dificuldades. Em 2012, comecei a fazer algumas encomendas de retratos realistas com grafite, mas esporadicamente, não gostava muito. Em 2016, eu trabalhava em uma cafeteria e lá comecei a fazer os quadros de promoções com giz. Logo em seguida, me inseri na moda das paredes pretas com letras brancas, e então começaram a aparecer muitos trabalhos desse tipo. Em 2017, acabei optando por trabalhar apenas com as paredes, e até hoje, é o que eu amo fazer”.
Qual é a imagem mais forte da tua infância que costuma aparecer nas tuas pinturas?
“Grande parte da minha família é extremamente apaixonada por natureza, principalmente flores, e eu acabei herdando esse gosto, mas não era algo muito requisitado nos meus trabalhos. Foi no último ano, quando apareceu uma demanda para adaptações de pinturas renascentistas, rococó e barrocas, que pude finalmente pintar a natureza e me apaixonar mais ainda pela pintura. Mas antes disso, meu trabalho sempre dependeu do que o cliente pedia”.

Primeiro quadro pintado por Marina, nos anos 2000
Qual foi o comentário mais duro que já ouviu e como ele te transformou?
“Sou uma pessoa extremamente sensível com críticas à minha arte, e nas redes sociais, as pessoas tendem a ser mais cruéis. De um ano para cá, começaram a aparecer críticas mais pesadas, porque meus vídeos alcançaram milhares de pessoas. Eu chorei muito e desacreditei do que eu achava que sabia fazer. As críticas me transformaram em uma pessoa ainda mais insegura com a parte da criação e isso aumentou meu medo de reprovação nos projetos prévios à execução das pinturas. Mas tem uma crítica antiga que me marcou muito: um senhor parou do meu lado e começou a me perturbar, dizendo que meu traço não era como deveria ser. Eu fiquei muito chateada e isso acabou me tornando mais perfeccionista em relação aos traços fluídos. Em resumo, não sei lidar com as críticas quando o trabalho é mais profundo, algo autoral, que não seja extremamente técnico e comercial, sem ficar muito triste. A arte é um pedaço do artista. Se você a critica, o atinge como pessoa”.
Quando está pintando, qual é o sentimento que predomina?
“A expectativa de fazer algo que vai deixar meu cliente feliz. Por trás do meu trabalho, tem uma pessoa que me contratou, que estava ansiosa por isso. E de certa forma, também sinto liberdade e um protesto bem baixinho de que mesmo a arte sendo de difícil valorização, devemos insistir e deixar ela presente, alcançando mais e mais pessoas e buscando o devido reconhecimento”.

Trabalho concluído recentemente em sua própria casa, totalmente autoral.
Sobre ir para a Europa: o que está dando mais frio na barriga?
“Tenho dois medos bem latentes: um deles é perder pessoas que ficarão aqui no Brasil enquanto eu estiver lá; e o prazo do trabalho, pois são vários cômodos inteiros a serem pintados, em um prazo que é considerado curto para a dificuldade das pinturas. O desconhecido não é um problema, eu sempre consegui enfrentar bem qualquer dificuldade nesse sentido”.
Como lida com as expectativas e opiniões?
“Eu recebo muitos elogios e admiração, mas às vezes, acabo me sentindo inferiorizada de alguma forma. Muitas pessoas me olham e pensam: ‘pobrezinha, está pintando ali, sofrendo, com roupinhas sujas’, como se fosse a única coisa que eu conseguiria fazer para sobreviver. Mas eu consigo combater a inferioridade momentânea lembrando que tudo que eu faço é por algo que eu amo, que eu não seria feliz trabalhando em outra coisa e que não importa como eu estou parecendo para as pessoas. Sobre as expectativas, quase sempre ouço um ‘ficou muito melhor do que eu esperava’, mas em alguns momentos bate sim a insegurança. O processo é longo e, no início, a arte pode parecer feia”.
