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Reportagens Edição 210 - Abril de 2026

Dos muros de Cachoeira para a Europa


“Quando as professoras faziam a atividade de desenhar a profissão que a gente queria ter quando crescesse, eu me desenhava pintando uma tela em um cavalete”. Marina Lucas Crapanzani.

Marina Crapanzani é uma artista incrível

 

 

Para quem vive da arte, o mundo costuma ser percebido com outra intensidade. Cores, formas e detalhes que passam batido para muitos, acabam se transformando em linguagem, memória e expressão. No caso da cachoeirense Marina Lucas Crapanzani, 32, essa sensibilidade acompanha sua história desde a infância, quando ainda muito pequena, já encontrava na pintura uma forma natural de olhar e traduzir o mundo ao seu redor.
 

Hoje, ela soma uma década pintando paredes, transformando muros, vitrines e espaços urbanos em telas vivas. E neste ano, Marina tem a oportunidade de consolidar ainda mais o seu trabalho, aceitando o convite para pintar na Europa. Ela embarca no mês de maio. “Fui contratada por um casal para fazer a pintura de praticamente toda a casa. Eles chegaram até mim por meio de um vídeo que um cliente publicou, mostrando o meu trabalho”, conta. Esse grande passo em sua carreira revela não apenas o ofício de quem pinta, mas o olhar sensível e a expressão criativa de uma artista que carrega, em cada traço, um pedaço de si mesma.

 

Quando, onde e qual foi a tua primeira pintura?

 

“Eu iniciei nas aulas do Atelier Livre Municipal de Cachoeira do Sul por volta dos anos 2000. Quando criança, reproduzi duas pinturas que vi lá e que me marcaram bastante. Uma delas é uma releitura. O quadro está exposto onde minha mãe mora. Ela foi a primeira pessoa a dizer que eu tinha o dom, além da professora Cida, do cursinho, que também fazia comentários sobre isso”.  
 

Quando resolveu encarar a arte como profissão?

“Venda de quadros sempre me pareceu um caminho com muitas dificuldades. Em 2012, comecei a fazer algumas encomendas de retratos realistas com grafite, mas esporadicamente, não gostava muito. Em 2016, eu trabalhava em uma cafeteria e lá comecei a fazer os quadros de promoções com giz. Logo em seguida, me inseri na moda das paredes pretas com letras brancas, e então começaram a aparecer muitos trabalhos desse tipo. Em 2017, acabei optando por trabalhar apenas com as paredes, e até hoje, é o que eu amo fazer”.
 

Qual é a imagem mais forte da tua infância que costuma aparecer nas tuas pinturas?

“Grande parte da minha família é extremamente apaixonada por natureza, principalmente flores, e eu acabei herdando esse gosto, mas não era algo muito requisitado nos meus trabalhos. Foi no último ano, quando apareceu uma demanda para adaptações de pinturas renascentistas, rococó e barrocas, que pude finalmente pintar a natureza e me apaixonar mais ainda pela pintura. Mas antes disso, meu trabalho sempre dependeu do que o cliente pedia”.  


 Primeiro quadro pintado por Marina, nos anos 2000

Qual foi o comentário mais duro que já ouviu e como ele te transformou?

“Sou uma pessoa extremamente sensível com críticas à minha arte, e nas redes sociais, as pessoas tendem a ser mais cruéis. De um ano para cá, começaram a aparecer críticas mais pesadas, porque meus vídeos alcançaram milhares de pessoas. Eu chorei muito e desacreditei do que eu achava que sabia fazer. As críticas me transformaram em uma pessoa ainda mais insegura com a parte da criação e isso aumentou meu medo de reprovação nos projetos prévios à execução das pinturas. Mas tem uma crítica antiga que me marcou muito: um senhor parou do meu lado e começou a me perturbar, dizendo que meu traço não era como deveria ser. Eu fiquei muito chateada e isso acabou me tornando mais perfeccionista em relação aos traços fluídos. Em resumo, não sei lidar com as críticas quando o trabalho é mais profundo, algo autoral, que não seja extremamente técnico e comercial, sem ficar muito triste. A arte é um pedaço do artista. Se você a critica, o atinge como pessoa”.

 

Quando está pintando, qual é o sentimento que predomina?

“A expectativa de fazer algo que vai deixar meu cliente feliz. Por trás do meu trabalho, tem uma pessoa que me contratou, que estava ansiosa por isso. E de certa forma, também sinto liberdade e um protesto bem baixinho de que mesmo a arte sendo de difícil valorização, devemos insistir e deixar ela presente, alcançando mais e mais pessoas e buscando o devido reconhecimento”.


Trabalho concluído recentemente em sua própria casa, totalmente autoral.

Sobre ir para a Europa: o que está dando mais frio na barriga?

“Tenho dois medos bem latentes: um deles é perder pessoas que ficarão aqui no Brasil enquanto eu estiver lá; e o prazo do trabalho, pois são vários cômodos inteiros a serem pintados, em um prazo que é considerado curto para a dificuldade das pinturas. O desconhecido não é um problema, eu sempre consegui enfrentar bem qualquer dificuldade nesse sentido”.
 

Como lida com as expectativas e opiniões?

“Eu recebo muitos elogios e admiração, mas às vezes, acabo me sentindo inferiorizada de alguma forma. Muitas pessoas me olham e pensam: ‘pobrezinha, está pintando ali, sofrendo, com roupinhas sujas’, como se fosse a única coisa que eu conseguiria fazer para sobreviver. Mas eu consigo combater a inferioridade momentânea lembrando que tudo que eu faço é por algo que eu amo, que eu não seria feliz trabalhando em outra coisa e que não importa como eu estou parecendo para as pessoas. Sobre as expectativas, quase sempre ouço um ‘ficou muito melhor do que eu esperava’, mas em alguns momentos bate sim a insegurança. O processo é longo e, no início, a arte pode parecer feia”.



Pintura realizada em uma parede de oito metros de altura

Se pudesse deixar tua marca registrada em um muro, qual seria?

“Seria a seguinte frase: ‘Eu prometo que se você se dedicar ao máximo, e ficar realmente bom nisso, você vai conseguir o que quer’. Vi uma frase parecida em um discurso da Lady Gaga e a carreguei por muitos anos. Quando consegui me inserir nas artes, sempre fui extremamente resiliente porque eu sabia que, se não desistisse, em algum momento as coisas iriam melhorar muito. Eu consegui porque tive ajuda da minha mãe Márcia, do meu namorado Guilherme Festinalli, e da minha família. Artistas sempre vão precisar de algum patrono, muitos momentos difíceis vão ocorrer e eu sempre tive pessoas por mim. Sou extremamente grata a elas”.

O que tu esperas encontrar na Europa?
 
“Eu sei que vou encontrar muita inspiração para o caminho que quero seguir e que serei apresentada para um mercado bem específico da arte, onde tem mais demanda por esse estilo que estou seguindo. Vou voltar com um portfólio muito grande e me empenhar ao máximo. Então acredito que será a consolidação do meu lugar dentro das artes de alta qualidade e valor”.

Existe um lugar que tu ainda tens o sonho de pintar?

“Até pouco tempo atrás, meu maior sonho era pintar prédios altos. Mas agora descobri que pintar cômodos inteiros, com adaptações dos estilos, também causa um impacto muito grande e é muito recompensador. Mas claro, ainda quero pintar pelo menos uma empena, com uma arte adaptada aos movimentos em que me inspiro atualmente, só para deixar minha marca em algum lugar do mundo”.





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