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Reportagens Edição 208 - Janeiro de 2026

Avanço ou Retrocesso?


Élin Almansa Michels, 36, professora de Língua Portuguesa e Literatura há 13 anos

Passar um aluno que reprovou em 4 matérias é o melhor a ser feito?

 

O que significa, afinal, ser aprovado na escola? A pergunta ganha força com a nova portaria publicada pela Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul (Seduc), que prevê mudanças no modelo de avaliação a partir de 2026. A proposta permite que estudantes avancem para o ano seguinte mesmo com reprovação em até quatro disciplinas no total (duas por área de conhecimento), desde que participem de um programa de estudos complementares.

 

A medida, no entanto, tem provocado reações distintas entre educadores em todo o Estado. Enquanto alguns professores enxergam a proposta como uma alternativa para reduzir a evasão escolar e tornar o processo avaliativo mais inclusivo, outros levantam questionamentos sobre os impactos na aprendizagem, no rigor pedagógico e na estrutura das escolas.

 
"Entendo que a nova regra busca evitar a evasão escolar, mas é necessário questionar o real sentido da reprovação. Reprovar não é apenas uma questão de nota, mas de não aprendizagem. Se um ano letivo inteiro não foi suficiente para garantir o aprendizado, a progressão automática tende a apenas adiar o problema e a colocar em xeque o trabalho do educador. Minha preocupação é que essas lacunas avancem ao longo da escolarização e impactem diretamente a formação dos futuros profissionais e a qualidade da sociedade que estamos construindo.”
 
Lucas Maciel, 38, professor de Matemática há 16 anos
 
"A nova regra tem uma boa intenção ao tentar reduzir a evasão escolar e evitar reprovações automáticas, mas traz riscos claros. Avançar de ano com até quatro disciplinas reprovadas, mesmo com limite de duas disciplinas por área e reforço obrigatório, pode fazer o aluno seguir sem aprender o essencial, principalmente se esse reforço não for bem estruturado. Na prática, as dificuldades apenas são empurradas para frente. Isso até pode melhorar indicadores como o Ideb, mas tende a formar estudantes com lacunas de aprendizagem, menor responsabilidade com os estudos e menos preparo para os desafios do futuro.”
 
 

Sandra Calegari, 55, professora aposentada com 32 anos de profissão 
 
"Por um lado, entendo que a ideia é evitar que os estudantes sejam retidos e percam o ano letivo, o que pode ser desmotivador e prejudicial para a autoestima. Por outro lado, me preocupa a possibilidade de que estes não estejam sendo preparados para os componentes curriculares em que foram reprovados, criando uma cultura de ‘passar sem esforço’. Talvez uma solução mais equilibrada seja oferecer apoio adicional aos estudantes que estão tendo dificuldades, como aulas de reforço ou programas de recuperação, apoio emocional, acompanhamento psicológico. Lidar com a frustração e as dificuldades é uma habilidade importante para o sucesso na vida. Ao permitir que os estudantes passem de ano mesmo tendo reprovado em até quatro componentes curriculares, podem estar privando-os da oportunidade de desenvolver essas habilidades. Se tirarmos todas as pedras do caminho, estaremos formando pessoas menos preparadas para lidar com desafios e obstáculos, além de oferecer uma visão distorcida do esforço e da dedicação necessários para alcançar o sucesso. Eles estarão mais propensos a buscar soluções fáceis e rápidas, em vez de se esforçar para alcançar o seu potencial máximo.”
 
 

Henrique Hettwer, 53, professor de Ciências Humanas há 11 anos
 
"A fragilização tendenciosa da avaliação no processo de ensino-aprendizagem é temerária e pode comprometer o futuro dos estudantes gaúchos. A adoção de medidas facilitadoras para a aprovação obedece a apenas um critério, o contábil, numa perspectiva neoliberal de tentar sucatear e desvalorizar a educação pública, ainda mais. Nesta concepção, o estudante é visto meramente como uma despesa. Assim, deve ‘progredir’ na vida escolar para ocupar o lugar que lhe cabe: mão de obra explorada, minimamente qualificada e subalternizada. De outra parte, é preciso que se reveja o processo avaliativo, numa perspectiva de uma educação emancipatória e de formação integral do indivíduo, instrumentalizando as escolas, valorizando os educadores e desafiando ao máximo os estudantes para os obstáculos que a vida apresentará, como Enem, concursos e mundo do trabalho. Fragilizar esse sistema com ‘modismos’ que mascaram a realidade é condenar gerações ao atraso e ignorar as verdadeiras necessidades.”
 
 

Jeanine Bonugli Isernhagen, 48, professora de Literatura Brasileira, Língua Espanhola e Artes há 25 anos

"Acredito que essa medida compromete severamente o rigor acadêmico e o desenvolvimento intelectual do estudante, uma vez que negligencia lacunas de aprendizado fundamentais que dificilmente serão recuperadas nas etapas posteriores. Ao facilitar o avanço sem o devido mérito ou domínio do conteúdo, corremos o risco de formar uma geração despreparada para os desafios reais, desestimulando a resiliência e o senso de responsabilidade necessários para o crescimento pessoal e profissional. Questiono, portanto, que tipo de profissionais e cidadãos estamos moldando ao substituir a exigência pela conveniência pedagógica.”





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