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Reportagens Edição 208 - Janeiro de 2026

Força Construída Na Dor


“Apesar de tudo, nunca deixei de seguir em frente. Transformei quedas em força, desafios em aprendizado e sonhos em motivação”. Fabiana Stedile

Fabiana fez da sua história um instrumento de transformação social  


A história de Fabiana Stedile, 49, não é daquelas em que se pula direto para a parte do “felizes para sempre”. Trata-se de uma trajetória construída sem atalhos, marcada pela persistência quando ninguém acredita, pelo recomeço quando tudo desmorona e pela capacidade de encontrar, no cuidado com o outro, o sentido de uma vida inteira de coragem.

Ela nasceu em Cachoeira do Sul e cresceu na Coxilha Bonita, no interior. A infância foi curta: desde cedo precisou trabalhar, e a escola não era uma rotina garantida. Tem três irmãos, mas não contou com a presença do pai, que não reconheceu a paternidade quando sua mãe engravidou, aos 19 anos. Por isso, foi criada pela mãe e pelo padrasto, a quem acompanhava na lida da lavoura. Ainda criança, assumiu responsabilidades de adulta: aos dez anos, cuidava do irmão recém-nascido, cozinhava e mantinha a casa em ordem. “Minha infância foi marcada por episódios de violência. As poucas lembranças afetivas que tenho são da casa da minha avó”, relembra.

Aos 13, para ajudar em casa, começou a trabalhar como doméstica, profissão que exerceu por cerca de oito anos. “Conciliar trabalho e estudo sempre foi um grande desafio, mas eu nunca abandonei o desejo de melhorar de vida”, conta. Ao longo dessa caminhada, descobriu valores que a acompanham até hoje: responsabilidade, resiliência e comprometimento com o futuro e com a vida que sonhava.

Episódios de preconceito
 
Assim como acontece com muitos adolescentes, a origem humilde deixou marcas profundas e dolorosas. “Na época, com a idade que eu tinha, sentia vergonha de dizer que era doméstica. Hoje, quando olho para trás, vejo que essa profissão foi um degrau muito importante na minha história. Foi por meio dela que consegui me sustentar por muitos anos”, relembra.
 
O preconceito veio da escola, de conhecidos e até do primeiro namorado. “Foi o meu primeiro amor, mas ele me deixou quando descobriu que eu trabalhava como doméstica”, conta. Além disso, Fabiana carrega o peso de ter vivenciado situações constrangedoras e até episódios de assédio sexual por parte de alguns empregadores. A dor, porém, transformou-se em combustível. “Transformei o preconceito em motivação. Isso ampliou minha consciência social e reforçou meu compromisso com a dignidade humana.”
 
Novos voos
 
Antes da profissão que exerce hoje, no Serviço Social, Fabiana sonhou em voar — literalmente. Queria ser comissária de bordo. “As pessoas riam e diziam: ‘como uma doméstica vai ser aeromoça?’”, lembra. Ainda assim, persistiu. Aos 18 anos, foi para Porto Alegre, onde frequentava o curso aos finais de semana e, muitas vezes, não tinha dinheiro nem para custear a própria alimentação. Aos 20, foi aprovada no processo seletivo da Transbrasil e se mudou para São Paulo, onde trabalhou por cerca de um ano, até a empresa falir.
 
O retorno foi difícil. “Quando voltei a Porto Alegre, não tinha onde morar e fui acolhida pela minha professora de inglês do Ensino Médio. Ela e sua família me ofereceram abrigo, apoio e carinho. Esse gesto de solidariedade é algo que jamais vou esquecer”, afirma.
 
Nesse período, trabalhou no comércio e conheceu Juliano Feitos Stedile, 47, analista de sistemas, com quem é casada há 24 anos. Dessa relação, realizou o grande sonho de construir sua família. “Não consegui engravidar naturalmente e precisei recorrer à fertilização in vitro. Felizmente, obtive sucesso na primeira tentativa e, mais tarde, tive meu segundo filho de forma natural.” Hoje, são pais de Vicente, 14, e Antônio, 12.
 
A escolha que fez sentido
 
A busca pela realização profissional reacendeu quando Fabiana entendeu que precisava fazer a diferença na vida das pessoas. Foi a partir desse momento que decidiu atuar no Serviço Social, graduação concluída em 2014 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O período foi intenso: casamento, filhos pequenos e noites mal dormidas. “Fiz o TCC com meu filho no peito; ele não dormia direito. Mas consegui: tirei nota 10, e meu trabalho foi publicado”, conta, orgulhosa.
 
Atualmente, atua na área da saúde, como assistente social no Pronto Atendimento do Hospital de Caridade e Beneficência (HCB), além de realizar perícias sociais. “Lidar com vulnerabilidade e violação de direitos não exige apenas técnica; é preciso também sensibilidade e equilíbrio emocional. Há muitos limites institucionais e legais na profissão, e reconhecê-los é um dos maiores desafios”, explica.
 
A volta para as origens
 
Há três anos, Fabiana retornou a Cachoeira do Sul. “Estava nos planos morar perto da minha mãe, que, apesar de todas as dificuldades, sempre foi um exemplo de força, trabalho e amor para mim. Além disso, poder criar meus filhos aqui também me motivou muito. Quero que eles cresçam com dignidade e oportunidades e saibam que é possível lutar e transformar sonhos em realidade”, declara.





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