
“As síndromes tendem a padronizar, individualizar e tornar palpável um sofrimento social”. Juliana Hamann Lopes
Cuidado com rótulos perigosos
Quando um comportamento humano recebe o nome de um personagem famoso, a impressão é de que tudo se torna mais simples de entender. São rótulos que parecem explicar personalidades inteiras em poucas palavras e ajudam a viralizar conceitos nas redes sociais. Mas, por trás dessa facilidade, existe um risco: reduzir histórias complexas a diagnósticos prontos, ignorando contextos e experiências individuais.
Para a psicóloga Juliana Hamann Lopes, 31, que tem seis anos de profissão, nenhum ser humano cabe em um estereótipo literário. “Essas síndromes não são diagnósticos clínicos, mas é possível que ao nomeá-las, nos tornemos mais atentos às vivências subjetivas, já que os nomes são atrativos e populares. Por outro lado, corre-se o risco de reduzir comportamentos humanos, que são bem mais complexos do que o que é relatado nas síndromes”, explica.
Por isso, é importante estar atento e identificar quando um traço de comportamento deixa de ser apenas uma característica e passa a exigir atenção terapêutica. “Ainda que possamos encontrar características semelhantes, como as referências das síndromes nos apontam, é individualmente que se pode identificar se há alguma questão a ser tratada. Quando houver sofrimento e prejuízos físicos, sociais ou emocionais, então pode ser a hora de buscar ajuda profissional”, destaca Juliana.
Síndrome de Peter Pan:
Adultos que se recusam a crescer e assumir responsabilidades. Essa síndrome, nomeada em 1983 pelo autor Dan Kiley, trata sobre a dificuldade de homens em amadurecer, apresentando incapacidade de encarar os sentimentos e responsabilidades da vida adulta. “É possível refletir sobre como alguns meninos crescem achando que são seres especiais e que nada precisam fazer para se desenvolver como pessoas, não aprendendo a se responsabilizar por suas atitudes e sentimentos”, completa a psicóloga.
Síndrome de Cinderela:
Medo de ser independente e desejo de ser “salva” por alguém. Nomeada a partir do livro “Complexo de Cinderela”, de Colette Dowling, a autora retrata comportamentos e temores profundamente reprimidos que impedem as mulheres de utilizar plenamente seu intelecto e sua criatividade. Como a Cinderela, as mulheres ainda esperam por algo externo que venha transformar suas vidas.
Síndrome de Otelo
Ciúme patológico, inspirado no personagem de Shakespeare, que por seu ciúme excessivo e a crença de que estava sendo traído pela esposa, acabou matando-a. “Vale lembrar que, de acordo com Freud, o ciúme é um sentimento normal, ainda que não seja racional, e está presente em nossa vida afetiva. Por isso, ele pode tomar proporções perigosas se ganhar força e acabar desprendendo-se da relação com o amor”, alerta.
Síndrome de Dorian Gray
Obsessão pela juventude e aparência. Surge a partir do personagem do livro “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Para Juliana, a criação de uma síndrome para descrever essa obsessão revela um momento histórico e social, no qual esses fatores têm ocupado espaço central na vida das pessoas. “Não é à toa que o Brasil lidera o ranking mundial em cirurgias plásticas e ocupa a segunda posição no mundo em procedimentos estéticos”, diz.
Síndrome de Rapunzel
Pessoas que ingerem cabelos (tricofagia), ligada a distúrbios compulsivos. Essa síndrome está relacionada à compulsão de arrancar e engolir os próprios cabelos, processos que estão classificados no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V). Ainda assim, é uma condição rara e que requer tratamento multidisciplinar.
ATENÇÃO!
A psicóloga alerta que o aspecto positivo dessas referências é usá-las para se autoavaliar e, a partir disso, reconhecer que algo não está bem e buscar informações científicas, assim como ajuda profissional. “Apegar-se apenas a um rótulo, cria estigmas e pode causar estagnação, levando a pensar que não há mais nada para além dessa classificação estereotipada”, afirma.