
Ruan Gambardella é médico pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e neurologista pela Universidade Federal de São Paulo.
Crie hábitos para proteger seu cérebro
O envelhecimento sempre fez parte da vida, mas a forma como chegamos lá mudou. Vivemos mais, trabalhamos mais e somos expostos a um volume crescente de informações, estímulos e responsabilidades.
Em meio a esse ritmo acelerado, cresce também uma preocupação comum a milhões de pessoas: como manter o cérebro saudável ao longo dos anos? Cada vez mais estudos mostram que decisões simples do dia a dia, como dormir bem, aprender algo novo ou manter uma rotina social ativa, têm impacto direto na forma como o cérebro envelhece.
Alzheimer ou demência?
Para o médico neurologista Ruan Gambardella, 30, é importante entender as diferenças que causam alterações no cérebro. “Quando uma pessoa apresenta piora em relação ao seu funcionamento habitual, mas continua conseguindo realizar normalmente suas atividades do dia a dia, chamamos isso de déficit cognitivo leve. Já quando essa queda cognitiva passa a comprometer a rotina, então caracterizamos como demência. E entre os vários tipos de demência, o mais comum é o Alzheimer, que geralmente começa afetando principalmente a memória”, explica.
É possível prevenir ou retardar o aparecimento dessas doenças?
Conforme o neurologista, retardar o avanço das demências é sempre possível, mas preveni-las totalmente nem sempre é. Isso porque muitos quadros têm uma base genética: cada pessoa nasce com um certo grau de predisposição para falhas nos mecanismos de limpeza e regeneração das estruturas do cérebro.
Entre os fatores de proteção do cérebro, estão:
- Atividade física regular. “Exercitar-se ao menos 150 minutos por semana, em intensidade moderada, é a medida mais eficaz que conhecemos, sendo até mesmo mais potente que os exercícios mentais”, destaca.
- Cuidados com hipertensão, tabagismo, consumo excessivo de álcool e diabetes. “Vínculos sociais e suporte emocional reduzem o risco de depressão, que por si só, é um fator de risco para piora cognitiva.
- Manter um sono de boa qualidade também é fundamental para consolidar memórias e ‘limpar’ resíduos produzidos pelo cérebro.
- Preservar a visão e a audição também faz muita diferença. “Corrigir problemas de refração, usar óculos adequados ou recorrer a aparelhos auditivos quando necessário evita uma sobrecarga cognitiva que, ao longo dos anos, acelera o declínio”, afirma.
Formas de exercitar o cérebro
É comprovado que atividades práticas, como o aprendizado de um novo idioma, ajudam nesse processo, pois exigem atenção, memória e flexibilidade linguística, o que fortalece conexões entre as diferentes regiões do cérebro. Leitura, cursos profissionais, instrumentos musicais, jogos de estratégia também são recomendados.
Alzheimer é só o esquecimento?
Não. Existem outros sinais de alerta que muitas vezes passam despercebidos. Um deles é a desorientação visuoespacial: a pessoa começa a se perder em trajetos que sempre fez e demonstra dificuldade para perceber distâncias e se orientar no espaço. Outro sinal frequente envolve alterações de linguagem, como empobrecimento do vocabulário, dificuldade para acompanhar conversas e a tendência a usar expressões vagas, como “aquele negócio”.
Mudanças de comportamento e personalidade são também alertas importantes. Erros de fala ou escrita, como dificuldade para pronunciar encontros consonantais, trocar fonemas (como falar “pato” em vez de “fato”) ou escrever palavras inventadas (“pseudopalavras”), que indicam falhas na organização da linguagem.
“A doença pode ainda comprometer o julgamento e a tomada de decisões, levando a escolhas inadequadas, gastos incomuns ou maior vulnerabilidade a golpes”, exemplifica Ruan. Para quem tem histórico familiar, a recomendação é adotar medidas de redução de risco modificáveis, manter vigilância clínica direcionada a sinais precoces e, em casos selecionados, considerar aconselhamento genético.
Tem medicação para o Alzheimer?
Segundo o neurologista, a Anvisa já autorizou a comercialização de uma injeção capaz de reduzir a formação das estruturas anormais (os beta-amiloides) que levam à doença. Esse tratamento não cura, mas retarda de forma significativa o surgimento e a progressão dos sintomas.