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Reportagens Edição 204 - Setembro de 2025

Infância em risco


Adultização em pauta nacional


Você certamente tem ouvido falar em adultização precoce nos últimos dias. Isso porque, no último dia 6 de agosto, o influenciador digital Felca publicou um vídeo onde expôs uma rede de exploração e sexualização de crianças e adolescentes em plataformas digitais. O conteúdo viralizou: em poucos dias, ultrapassou dezenas de milhões de visualizações e desencadeou uma onda de mobilização social, midiática e política.


A repercussão foi imediata e significativa. 32 projetos de lei foram apresentados na Câmara dos Deputados para criminalizar práticas de adultização digital, impor restrições à monetização de conteúdos com menores, responsabilizar plataformas e até tipificar penalmente a exploração psicológica. A denúncia também fez com que o influenciador Hytalo Santos, apontado no vídeo de Felca como explorador de adolescentes, fosse preso preventivamente em 15 de agosto, em São Paulo.


No Senado, a mobilização chegou ao ponto de 70 parlamentares protocolarem um pedido de CPI para investigar influenciadores e plataformas digitais que lucram ou facilitam esse tipo de conteúdo.

 

Mas o que significa “adultizar” uma criança?

A adultização não se refere somente à exploração sexual de crianças e adolescentes. Para Natielly Rosa de Azambuja, 26, psicóloga pós-graduada em Psicologia e Desenvolvimento Infantil, a adultização acontece sempre que a criança é sobrecarregada com responsabilidades e preocupações que pertencem ao mundo adulto, antes mesmo de estarem emocionalmente preparadas para isso. Para ajudar a compreender, ela explica de maneira contextualizada:

 

PRIMEIRA INFÂNCIA 

(0 a 6 anos):

O que é saudável: escolher e guardar os brinquedos, auxiliar em tarefas simples como arrumar a mesa, a cama e colocar as louças na pia. Tentar comer e se vestir mesmo que com dificuldade.

O que é adultizar: obrigar a criança a ser a cuidadora principal dos irmãos e responsabilizá-la pela mediação de conflitos dos pais.

 

IDADE ESCOLAR 

(7 a 11 anos):

O que é saudável: a criança já possui capacidade de gerir a própria mesada, resolver conflitos com os amigos e colegas de forma eficiente e de planejar a agenda de estudos para provas e trabalhos.

O que é adultizar: obrigar a criança a trabalhar para contribuir na renda familiar e expô-la a conteúdos sexuais ou violentos.

 

E onde a adultização “se esconde”?

Este é um fenômeno que acontece por vários fatores, e, muitas vezes, ele mora na inocência do pai ou da mãe, orgulhosos, que compartilham fotos e vídeos do filho na internet. Afinal, não tem nada de mais em postar uma foto da criança brincando na praia, não é? Para a rede próxima de amigos e familiares, não. Mas para olhares maldosos de terceiros, esse simples registro vira alvo de pedofilia.  


Além disso, grande parte das crianças já costuma ter redes sociais, e, assim, acabam vivenciando a exposição precoce a conteúdos adultos, bem como a pressão por padrões estéticos e de comportamento. A adultização também pode aparecer quando os pais projetam suas ambições ou frustrações nos filhos, exigindo um desempenho e maturidade além do esperado para a idade.


“E nós, enquanto sociedade, contribuímos para o problema ao endossar que as crianças sejam ‘multitalentosas’, com uma agenda lotada que rouba o tempo livre e o direito de simplesmente brincar e aprender”, diz.

 

Quais são as consequências?

Para a psicóloga, o peso de responsabilidades desproporcionais à idade da criança impede que ela vivencie a leveza da infância, levando-a a um estado de estresse crônico que pode ter reflexos também na saúde física. Ela afirma que a criança adultizada pode se sentir diferente em relação às outras da sua idade, o que pode levá-la ao isolamento social. “E quando se trata de exposição precoce à sexualização, a criança se torna ainda mais vulnerável, sendo incapaz de reconhecer e se proteger de situações de exploração ou assédio”, alerta.

 

Principais prejuízos:

- Ansiedade e estresse;

Baixa autoestima e insegurança;

Impactos no desenvolvimento emocional;

Isolamento social;

Aumento do risco de exposição e vulnerabilidade;

Perda da capacidade de brincar.

 

 

O que dizem as mães:

"Percebo situações de adultização no dia a dia das minhas filhas, normalmente em detalhes que parecem pequenos, como músicas que não são da idade delas, brincadeiras ou falas que já trazem um jeito de ‘gente grande’, além do uso de maquiagens. Minha filha mais nova observa e imita tudo o que a irmã mais velha faz, então procuro estar atenta a esses sinais. Não é sempre fácil, mas tento equilibrar limites com diálogo. Também valorizo o brincar, a imaginação, os esportes, as risadas e o tempo em família”.

Sabrin Dauli Baja Misleh Ahmad, 30, bacharel em Direito, mãe da Dunia, 8, e da Yasmin, 4.
 
"Matias sempre foi uma criança madura em seu comportamento, troca facilmente brincadeiras por conversas com adultos. Há dois anos, percebemos seu desenvolvimento físico acelerado. Então estamos fazendo atividades do dia a dia de forma lúdica e brincadeiras antigas, como ‘o que é o que é’ e reconhecimento de formas nos desenhos das nuvens”.

Suelen Massotti Hendges, 43, cirurgiã-dentista, mãe do Matias, 8.

E os adultos chupando bico?
 
Um fenômeno contrário à adultização também surgiu recentemente nas redes sociais e deu o que falar: agora, a nova moda entre adultos é chupar chupeta. O que antes era um acessório infantil, acabou viralizando entre a geração Z com a promessa de auxiliar na rotina de sono e ser um produto “anti-estresse”. 
 
Natielly Rosa afirma que o comportamento incomum pode gerar consequências psicológicas significativas, justamente por criar uma dependência emocional e impedir o amadurecimento e o desenvolvimento de maneiras mais saudáveis para enfrentar as situações de dificuldade. “Esse hábito pode representar uma ‘regressão’ psicológica, servindo como um refúgio para escapar das responsabilidades e pressões da vida”, destaca.

“Enquanto a autonomia nutre, a adultização sobrecarrega, roubando o direito de viver a infância plenamente”. Natielly Azambuja





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