Infância em risco

Adultização em pauta nacional
Você certamente tem ouvido falar em adultização precoce nos últimos dias. Isso porque, no último dia 6 de agosto, o influenciador digital Felca publicou um vídeo onde expôs uma rede de exploração e sexualização de crianças e adolescentes em plataformas digitais. O conteúdo viralizou: em poucos dias, ultrapassou dezenas de milhões de visualizações e desencadeou uma onda de mobilização social, midiática e política.
A repercussão foi imediata e significativa. 32 projetos de lei foram apresentados na Câmara dos Deputados para criminalizar práticas de adultização digital, impor restrições à monetização de conteúdos com menores, responsabilizar plataformas e até tipificar penalmente a exploração psicológica. A denúncia também fez com que o influenciador Hytalo Santos, apontado no vídeo de Felca como explorador de adolescentes, fosse preso preventivamente em 15 de agosto, em São Paulo.
No Senado, a mobilização chegou ao ponto de 70 parlamentares protocolarem um pedido de CPI para investigar influenciadores e plataformas digitais que lucram ou facilitam esse tipo de conteúdo.
Mas o que significa “adultizar” uma criança?
A adultização não se refere somente à exploração sexual de crianças e adolescentes. Para Natielly Rosa de Azambuja, 26, psicóloga pós-graduada em Psicologia e Desenvolvimento Infantil, a adultização acontece sempre que a criança é sobrecarregada com responsabilidades e preocupações que pertencem ao mundo adulto, antes mesmo de estarem emocionalmente preparadas para isso. Para ajudar a compreender, ela explica de maneira contextualizada:
PRIMEIRA INFÂNCIA
(0 a 6 anos):
O que é saudável: escolher e guardar os brinquedos, auxiliar em tarefas simples como arrumar a mesa, a cama e colocar as louças na pia. Tentar comer e se vestir mesmo que com dificuldade.
O que é adultizar: obrigar a criança a ser a cuidadora principal dos irmãos e responsabilizá-la pela mediação de conflitos dos pais.
IDADE ESCOLAR
(7 a 11 anos):
O que é saudável: a criança já possui capacidade de gerir a própria mesada, resolver conflitos com os amigos e colegas de forma eficiente e de planejar a agenda de estudos para provas e trabalhos.
O que é adultizar: obrigar a criança a trabalhar para contribuir na renda familiar e expô-la a conteúdos sexuais ou violentos.
E onde a adultização “se esconde”?
Este é um fenômeno que acontece por vários fatores, e, muitas vezes, ele mora na inocência do pai ou da mãe, orgulhosos, que compartilham fotos e vídeos do filho na internet. Afinal, não tem nada de mais em postar uma foto da criança brincando na praia, não é? Para a rede próxima de amigos e familiares, não. Mas para olhares maldosos de terceiros, esse simples registro vira alvo de pedofilia.
Além disso, grande parte das crianças já costuma ter redes sociais, e, assim, acabam vivenciando a exposição precoce a conteúdos adultos, bem como a pressão por padrões estéticos e de comportamento. A adultização também pode aparecer quando os pais projetam suas ambições ou frustrações nos filhos, exigindo um desempenho e maturidade além do esperado para a idade.
“E nós, enquanto sociedade, contribuímos para o problema ao endossar que as crianças sejam ‘multitalentosas’, com uma agenda lotada que rouba o tempo livre e o direito de simplesmente brincar e aprender”, diz.
Quais são as consequências?
Para a psicóloga, o peso de responsabilidades desproporcionais à idade da criança impede que ela vivencie a leveza da infância, levando-a a um estado de estresse crônico que pode ter reflexos também na saúde física. Ela afirma que a criança adultizada pode se sentir diferente em relação às outras da sua idade, o que pode levá-la ao isolamento social. “E quando se trata de exposição precoce à sexualização, a criança se torna ainda mais vulnerável, sendo incapaz de reconhecer e se proteger de situações de exploração ou assédio”, alerta.
Principais prejuízos:
- Ansiedade e estresse;
- Baixa autoestima e insegurança;
- Impactos no desenvolvimento emocional;
- Isolamento social;
- Aumento do risco de exposição e vulnerabilidade;
- Perda da capacidade de brincar.

O que dizem as mães:


