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Reportagens Edição 202 - Julho de 2025

Preguiça de decidir


“Quando negligenciada, a fadiga decisional pode evoluir para quadros mais complexos de transtornos de ansiedade, depressão e síndrome de burnout”, alerta o neurologista Ruan Gambardella

O excesso de escolhas diárias esgota o cérebro

 

Você já teve a sensação de estar cansado de tanto pensar ou decidir coisas simples do dia a dia? Como o que vestir, o que comer, qual filme assistir, como agir diante de um problema, e por aí vai... Esse fenômeno neuropsicológico tem nome: fadiga decisional, que acontece quando o cérebro é exposto a um volume excessivo de escolhas.

 

Esse estado, muitas vezes silencioso, causa um desgaste mental que compromete a clareza, a racionalidade e até o autocontrole. “Isso esgota os recursos cognitivos para avaliar e escolher, afetando a qualidade das decisões e o bem-estar mental”, explica o médico neurologista Ruan Gambardella, 30. Ele é natural do Rio de Janeiro (RJ) e mora e atende em Cachoeira do Sul desde março deste ano.

 

Não é saudável, mas é comum

A fadiga decisional não é um fenômeno novo, mas seu impacto real na saúde mental parece mais forte nos dias de hoje, por conta da valorização da hiperprodutividade e do aumento do número de decisões que tomamos com a vida digital — notificações, múltiplas escolhas em apps, muitos estímulos e informações. “O cérebro fica constantemente em estado de alerta e decisão. Esse cenário resulta em uma sobrecarga crônica dos circuitos cerebrais”, afirma o especialista.

 

Do ponto de vista neurológico, qualquer decisão, por mais simples que seja, requer a ativação de áreas cerebrais relacionadas ao processamento cognitivo, em particular o córtex pré-frontal, que é a região responsável pelo raciocínio, planejamento e regulação emocional.

 

“Além disso, ocorre uma queda na disponibilidade de neurotransmissores, como dopamina e serotonina, que afeta diretamente a motivação, a capacidade de foco e o controle dos impulsos. Isso explica por que, após muitas decisões, as pessoas tendem a adotar comportamentos mais impulsivos, procrastinar ou evitar escolher”, destaca.

 

Comportamentos mais ansiosos

De acordo com Ruan, a fadiga decisional está diretamente vinculada ao aumento dos níveis de estresse e pode desencadear quadros de ansiedade, irritabilidade, desânimo e procrastinação. Também pode-se observar impacto direto na concentração, na memória e na dificuldade em manter o foco. “Na tentativa de se proteger desse esgotamento, o cérebro tende a evitar tarefas que demandam esforço cognitivo, o que gera um ciclo em que a pessoa adia compromissos, perde produtividade no trabalho e, consequentemente, sente-se ainda mais sobrecarregada”.

 

Como treinar o cérebro

Existem estratégias muito eficazes e validadas pela neurociência para treinar o cérebro para lidar com o volume de decisões. Ruan destaca que a primeira delas é a adoção de rotinas bem definidas, que reduzem a quantidade de decisões corriqueiras diárias.

 

Outra estratégia é a hierarquização de prioridades — decidir o que, de fato, merece sua energia mental e o que pode ser delegado, automatizado ou postergado. Além disso, pausas programadas ao longo do dia, sono adequado, atividade física regular e alimentação saudável têm efeito comprovado na preservação da saúde cognitiva e na redução da fadiga mental.

 

Quais os sinais de que isso está afetando a minha saúde mental?

- Sensação constante de esgotamento mental, mesmo após descanso físico;

Irritabilidade, intolerância e menor controle emocional;

Dificuldade crescente de concentração e aumento nos esquecimentos;

Procrastinação excessiva, mesmo em atividades simples;

Queda significativa de produtividade;

Sintomas físicos associados, como insônia, dores musculares, dor de cabeça e cansaço persistente.






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