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Reportagens EDIÇÃO 19 - NOVEMBRO 2008

Carreira solo


Recomeçar a vida sozinho depois do fim de uma união assusta, mas se a decisão foi bem tomada, não é tão difícil quanto parece

 

Até que a morte os separe", tradicional frase repetida ao final das cerimônias de casamento, parece estar com os dias contados. Cada vez me-nos pronunciada, ela traduz uma situação que tem deixado de ser vivida por casais que aos poucos vão vendo o sonho de uma união duradoura ser destruído pelo tempo. Mudanças na sociedade, como o aumento da expectativa de vida, em que a longevidade impulsiona o desejo pelo bem-estar, e também as transformações no comportamento das mulheres, hoje independentes financeiramente, fazem proliferar o número de divórcios.
Entretanto, decidir pela separação depois de anos de convivência ainda é uma missão difícil. O relacionamento com os filhos, os netos, a rotina do casal, a segurança financeira, os bens adquiridos ao longo da vida, a idade, isso tudo influencia na hora da decisão. Mas o recomeço de uma vida, desta vez sozinho, é um dos pontos que mais assusta e ainda faz com que muitas relações mal sucedidas sigam por anos a fio sem o glamour encenado na noite do matrimônio, mas como um verdadeiro tormento para o casal.

"Colocar um ponto final em um casamento exige  coragem e uma séria avaliação se valerá a pena", resume a professora Ely Marciniak, 79 anos, que pediu separação há dois anos, nas vésperas de comemorar suas bodas de ouro. Depois de quase 50 anos de convivência com o ex-marido, seu relacionamento é uma prova de que na vida nem tudo é eterno, mas que nem por isso as histórias de amor precisam ter um final triste. “No começo, quando tudo é cor de rosa, as diferenças não incomodam, mas depois elas vão distanciando cada vez mais o casal. Enquanto ele vê o mundo de forma pessimista, eu sou otimista e essa forma de pensar totalmente oposta foi a grande responsável pelo fim do matrimônio”, observa.

 


Ely: idade e tempo de convivência não foram empecilhos para ela dar um fim na relação

 


O casal possui duas filhas, cinco netos e um bisneto e segue dividindo a mesma casa, mas com entradas independentes, o que garante a privacidade dos dois. Hoje, Ely garante que se sente leve, livre e desimpedida para poder fazer o que gosta, principalmente viajar. Quanto a um novo amor em sua vida, ela descarta a possibilidade, apesar de concordar que não é uma coisa que possa prever. “Quero aproveitar o restante da minha vida e ficar de bem comigo mesma. Nem vou a bailes, mesmo gostando muito de dançar, para não correr o risco de ser paquerada. Agora meu amor é só para minha família e amigos”, conta. “Não sei se sou exemplo, mas para quem vive uma relação desgastada é preciso analisar se vale a pena seguir adiante. No meu caso a convivência estava me fazendo sofrer e vi que não tinha solução. Sou uma sonhadora, sempre pensei que na velhice seríamos amigos e ainda nos amaríamos, mas não foi o que aconteceu. Não podia mais viver assim. Vejo que a separação, com todos seus obstáculos, só me fez bem”, ressalta Ely.



 

Questão bem resolvida


Separação deve ser muito bem pensada, independente de quem parte a decisão


A mulher tem mais dificuldades de recomeçar sua vida sentimental após um rompimento amoroso do que o homem? Pela própria educação dada à mulher, ela tende a valorizar muito mais o sentimento e o relacionamento. Entretanto, recomeçar exige esforço de qualquer parte. Casado durante 21 anos, o piloto agrícola e representante comercial Mário Henrique Kämpf, 45, ainda está se acostumando com o novo ciclo que iniciou em sua vida no último mês de maio, quando se separou de sua esposa. “O recomeço não é fácil, mas é preciso ver o lado positivo também”, observa.
Para Mário, optar pela separação depende de um longo processo e a decisão precisa ser muito bem resolvida. Uma psicoterapia de casal ajuda muito, porque os companheiros acabam descobrindo e revelando um ao outro as suas mágoas e resolvendo os conflitos que estariam colaborando, ao longo do tempo, para uma separação. O auxílio de um psicólogo contribui para que o casal volte a dialogar, problema que freqüentemente é motivo para o divórcio. “É preciso esgotar todas as tentativas e os dois se empenhar para através de mudanças salvar o casamento. Só aí, se não der resultado, se separar”, ressalta.
Como a separação é recente, por enquanto ele ainda não está tendo um convívio social na nova condição de solteiro. “Esse recomeço deve ser natural e ir acontecendo aos poucos, é preciso um tempo para se adaptar às mudanças e reorganizar a vida. Não adianta atropelar etapas, tudo tem seu tempo”, aconselha Mário a quem vive situação semelhante a dele.

 


Mário: “antes de separar é preciso esgotar todas as alternativas possíveis para salvar o casamento”



 

Casamentos x separações


Em 2007, o número de casamentos no Cartório de Registro Civil em Cachoeira do Sul foi menor do que o número de divórcios. Os dados contrariam o que vinha acontecendo pelo menos nos últimos sete anos, mas provam que a onda de separações na cidade é um fato real.


ANO        CASAMENTOS      SEPARAÇÕES/DIVÓRCIOS
2001             205                             139
2002             336                             199
2003             275                             192
2004             303                             191
2005             283                             186
2006             289                             218
2007             257                             282


Fonte: Cartório de Registro Civil / Arquivo Jornal do Povo

 


Vida nova


É preciso coragem para ser feliz novamente


Uma coisa é regra: quando se conhece alguém por quem se apaixona e depois se passa a amar, a última coisa que se pensa é na possibilidade da separação. Entretanto, é preciso admitir que relacionamentos mudam e se desgastam e que muitas vezes a salvação está em cada um partir em busca dos seus ideais. Na verdade, ninguém está preparado para o fim, pois as relações não são construídas para que terminem e sim para que durem a vida toda. É o ideal, e o sonho de todo casal que se propõe uma vida a dois, família e filhos. E, de repente, tudo muda. Existem muitos casos nos quais a separação é decidida unilateralmente, não deixando por isso de ser uma situação difícil tanto para quem parte, como para quem fica. Recomeçar não é brincadeira, mas retomar o dia-a-dia de solteiro não é tão difícil quanto parece.
A psicopedagoga e orientadora educacional Rosane Figueiredo, 51, assina embaixo o que está escrito acima. Depois de 33 anos de união, sendo sete de namoro e 26 anos de casamento, em acordo com o ex-marido, ela optou pelo fim do matrimônio. “Em primeiro lugar, para optar pela separação é necessário bancar a decisão, ou seja, ter condições de reorganizar a vida, fazendo principalmente ajustes financeiros. Isso estando acertado faz o recomeço ficar mais fácil e pelo bem emocional já vale a pena”, observa. No caso de Rosane, ainda com uma fase a mais: ela escolheu sair da morada do casal e montar seu próprio apartamento.
 “A separação não acontece de uma hora para outra, muitas vezes a gente já está sozinha há tempos e não se deu conta disso. Às vezes a vida dá tantas voltas e acontecem tantas transformações no curso do tempo, com projetos pessoais cada vez mais distantes, que a única saída digna para buscar a felicidade é a separação”, ressalta. Rosane que segue com sua vida social e profissional, garante que o recomeço está sendo gratificante. “Ter o suporte de um terapeuta é fundamental para que a decisão fique clara e não haja arrependimentos”, salienta.



 

"Não acho fracasso uma relação que dure 10, 20 anos e depois termine. Acredito somente que deva ser eterna enquanto dure, como já dizia o poeta Vinícius de Moraes."

 


Rosane: frase da escritora Lya Luft mostra seu pensamento:  “Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história”.



 

Se o fim de um relacionamento for inevitável, ou já aconteceu, o que fazer?


. Quando um relacionamento acaba, é melhor mesmo colocar um ponto final nele e seguir em frente, apesar de tudo. Não adianta culpar-se. Ambos contribuíram de alguma forma para que ele terminasse.


. O mais importante é estar de bem consigo mesmo. É claro que poderá surgir uma série de dificuldades, afinal não é tão simples recomeçar a vida sozinho depois de tanto tempo com alguém.


. Não adianta procurar recomeçar algo que já não existe mais. Se acabou é porque já não se sustentava mais.


. Deixe seu coração livre e sua alma leve para voltar a viver novamente.


. O pior é tentar deixar de sofrer com a perda de alguém buscando um novo relacionamento logo em seguida. Quem fizer isso estará buscando alguém semelhante àquele(a) que o deixou, procurando nesse novo relacionamento aquilo que não conseguiu ter no anterior. Aí está o problema: o(a) novo(a) parceiro(a) provavelmente não vai suprir aquilo que o outro não deu e haverá mais sofrimento.


. É melhor, quando um relacionamento termina, procurar ficar só por um tempo, cuidar de si próprio, aumentar a auto-estima, fortalecer-se... Amar-se é a palavra-chave, porque só depois de amar a si próprio é que alguém estará pronto para amar e deixar-se amar por alguém novamente.


. Pedir apoio não é vergonha nem desmerece ninguém. Familiares, amigos e até pessoas que nem imaginávamos podem ser peças-chave nesta etapa de reintegração e recomeço.


. Com o fim, tudo é novo e precisa ser encarado assim para se ter força. Não há como fugir do desafio de recomeçar e tirar dessa experiência amarga o máximo de força que se puder obter. O tempo não pára.







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