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Reportagens Edição 182 - Setembro de 2023

A era do narcisismo


“É importante lembrar que a presença de algumas dessas características não necessariamente indica que alguém seja narcisista. O diagnóstico requer uma avaliação profissional”. Fernanda Scarparo Boeck.

Pessoas que têm transtorno de personalidade 

 

Com certeza você já ouviu falar do narcisismo. Mas você sabia que isso se trata de um transtorno de personalidade? Ele é capaz de afetar a mente da pessoa por completo. Em outras palavras, quer dizer que o narcisista pensa, sente, percebe-se e interage com o mundo de uma maneira diferente da maioria das pessoas. 

 

O Transtorno de Personalidade Narcisista é considerado uma condição de saúde mental, definido como um padrão persistente de grandiosidade, exibicionismo, falta de empatia em diversos contextos e necessidade excessiva de admiração.  

 

Geralmente, esses fatores acabam interferindo negativamente na vida de quem sofre com a doença. “Pessoas com esse transtorno tendem a ter uma visão inflamada de si mesmas, buscando constantemente validação e atenção, além de terem dificuldade em reconhecer as necessidades e as emoções dos outros”, explicou a médica psiquiatra Fernanda Scarparo Boeck, 52, profissional da área há 28 anos.  

 

 

A pessoa nasce narcisista?
Segundo Fernanda, a origem do narcisismo envolve uma interação complexa entre fatores genéticos, biológicos, ambientais e de desenvolvimento. Alguns especialistas acreditam que esses traços podem ter raízes na infância, como experiências de excessiva admiração ou críticas insuficientes dos cuidadores. “A combinação desses fatores, juntamente com o desenvolvimento da personalidade ao longo do tempo, pode contribuir para a manifestação do transtorno”, disse.  

 

 

Sinais disfarçados 
O diagnóstico e o tratamento envolvem intervenções terapêuticas, como a terapia cognitivo-comportamental, focada na pessoa e outras abordagens de saúde mental. Se você suspeita de alguém que possa estar enfrentando a doença, procure um profissional para avaliação. Mas Fernanda destaca que nem sempre é fácil perceber, já que algumas características podem estar disfarçadas: 

 

Empatia seletiva: pessoas narcisistas só demonstram empatia quando isso as beneficia ou quando podem receber elogios por isso. 

  

Sentimento de inveja e rivalidade oculta: por trás da aparência de confiança e autoestima, os narcisistas internalizam inveja e rivalidade em relação a outras pessoas, especialmente se percebem que elas têm algo que eles desejam. 

  

Necessidade de validação: pessoas narcisistas dependem excessivamente da validação externa para sustentar sua autoestima. Elas podem esconder a insegurança sob uma fachada de grandiosidade. 

  

Mágoa e intolerância à crítica construtiva: críticas reais podem ferir profundamente pessoas narcisistas. Elas são vistas como ataques pessoais e podem levar a reações excessivas, como raiva ou ressentimento. 

  

Uso de mecanismos de defesa: pessoas narcisistas podem usar mecanismos como a projeção, para atribuir seus próprios sentimentos a outras pessoas; ou a negação, para recusar-se a aceitar a realidade e proteger sua autoimagem. 

  

 

Manipulação sutil: eles podem usar táticas sutis de manipulação para controlar situações e obter a atenção que desejam, sem que isso seja imediatamente perceptível.  Eles conseguem, inclusive, fazer com que as pessoas se sintam confusas e culpadas. 

 

 

O narcisista nas suas relações 
A médica psiquiatra afirma que os sintomas e efeitos prejudiciais podem se manifestar de forma diferente, dependendo da gravidade do transtorno. 

 

Pais narcisistas: “Eles têm foco excessivo em si mesmos. Sentem dificuldade em compreender os sentimentos e as perspectivas dos filhos, minimizando ou invalidando suas emoções. Também costumam criticar e desvalorizar os filhos, sempre buscando destacar suas próprias realizações. Em alguns casos, podem vê-los como uma extensão de si mesmos e competir por atenção e reconhecimento. Também gostam de estabelecer expectativas elevadas e não, buscando que eles atendam às suas necessidades”.  

 

Companheiros narcisistas: “Tendem a focar constantemente em si mesmos, suas conquistas e sua imagem. Podem usar da manipulação para obter o que desejam, muitas vezes se fazendo de vítimas ou usando chantagem emocional. Sentem dificuldade em se colocar no lugar do parceiro, procuram constantemente validação e elogios. Geralmente, as relações são superficiais, com dificuldade em se conectar emocionalmente”. 

  

Chefes narcisistas: “Se promovem constantemente, destacando suas próprias realizações e minimizando as dos outros. Podem criticar e menosprezar os funcionários publicamente, em vez de oferecer feedback construtivo. Tiram proveito dos esforços dos funcionários sem oferecer reconhecimento ou recompensas adequadas e atribuem o sucesso da equipe a si mesmos”.  

 

 

Como a terapia pode ajudar? 


“Por mais que o conceito seja um só, é importante considerar o sujeito que está à nossa frente. Alguém que carrega uma história de vida, provavelmente de traumas na infância e que, conforme foi crescendo, foi adaptando suas estratégias de sobrevivência emocional”.  Bárbara Wolff de Matos


 

A psicóloga Bárbara Wolff de Matos, 29, destaca que pessoas com personalidade narcisista buscam ajuda não por questões decorrentes do transtorno em si, mas por estarem em sofrimento em uma ou mais áreas da vida. “São pessoas que estão tentando lutar contra raiva, tristeza e ansiedade. Podem apresentar queixas de baixa autoestima, perfeccionismo, isolamento social, como também podem não demonstrar vulnerabilidade e negar a necessidade de ajuda. São pessoas muito focadas no seu desempenho e, por isso, com dificuldades de lidar com erros”, disse. 

 

A psicóloga explica que, desde a infância, as marcas que vão sendo criadas no desenvolvimento da criança, acabam sendo carregadas para a vida toda, tanto de forma funcional como disfuncional. A primeira tem a ver com amor saudável: “Eu aprendo a me respeitar, a me cuidar; me sinto seguro mesmo na ausência de relações e reconheço a falta como parte inerente das relações”.  

 

 

Já a segunda, fica estagnada no egocentrismo que, quando criança, é natural, mas não na vida adulta. Dessa forma, acreditam que “os outros têm que me amar, me agradar, me aplaudir e me carregar, já que sozinho, não sou capaz; quando estou em uma relação, temo ser abandonado, e quando não estou, temo ficar sozinho”, exemplificou.  

 

Para quem convive: como se curar da dependência emocional? 
Segundo a psicóloga, é comum quem está em uma relação de dependência também ter marcas de necessidades não atendidas. Pode ser que essa pessoa também tenha sua visão de “eu” fragilizada, passando a encontrar dificuldade para se distanciar, mesmo quando há um grau significativo de sofrimento. É o famoso “ruim com ele, pior sem ele”. 
 
“É um processo doloroso e que pode ser a chave de libertação e crescimento. É dar voz àquela criança que ainda grita por amor, ou chora escondida. Mas a verdade é que cada um tem seu processo. E mesmo que haja o afastamento ou término de uma relação de dependência emocional, isso ainda é o topo do iceberg: pode não dizer nada isoladamente. É preciso ir mais a fundo e dar-se a possibilidade de se respeitar e amar”. 





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