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Reportagens Edição 171 - Setembro de 2022

Geração Z: ansiosos e digitais


Natielly Rosa

Entenda os novos hábitos de quem nasceu a partir de 1995 

 

 

Em vários momentos, ouvimos falar sobre as gerações e suas características marcantes. Uma delas, e que tem sido muito comentada justamente por ser diferente de todas as outras em muitos aspectos, é a Geração Z, formada por pessoas nascidas entre 1995 e 2010. Os motivos são diversos, em especial, a íntima relação com a tecnologia. Essas pessoas que nasceram no momento de maior popularização da internet são, inclusive, chamadas de “nativas digitais”. 

 

Mas, para além da facilidade tecnológica, a Geração Z apresenta ainda uma série de caraterísticas bem particulares, ligadas a sua forma de agir, pensar e se comunicar. São pessoas críticas, que “pensam fora da caixa”, usuárias assíduas do sistema de delivery e de lojas virtuais, que aprenderam a criar relações pelas redes sociais e por aplicativos. 

 


 

Essa combinação de elementos, segundo uma pesquisa realizada em março deste ano pela BBC News, tem forte influência no bem-estar emocional e mental dos jovens. Conforme o site de notícias, outras características marcantes no comportamento dessa geração são a ansiedade, o uso excessivo das redes sociais, a frustração profissional e preocupações com assuntos discutidos a nível mundial, como o feminismo e o meio ambiente. Para as psicólogas Natielly Rosa, 23, e Hanna Kemel, 24, que também integram essa geração, outros fatores também servem como sinal de alerta, como o consumismo exagerado, a sobrecarga de tarefas e os vestígios deixados pela pandemia.  

 

“Elas podem se tornar disfuncionais e resultar em algumas dificuldades, como a falta de memória e concentração, relutância em seguir rotinas e hierarquias, prejuízos no desenvolvimento das habilidades sociais, sintomas de ansiedade, perda de interesse e prazer nas atividades, insônia ou excesso de sono, automutilação e suicídio”, afirmam.  

 

Conforme as profissionais, a Geração Z ainda é marcada pela sua independência, e esse também pode ser um ponto de atenção. “São pessoas que buscam soluções rápidas para os seus problemas, muitas vezes, procurando esse suporte em aplicativos de saúde e redes sociais. Se por um lado temos a facilidade do acesso à informação, por outro, temos as fake news. Diante disto, é imprescindível que pais e cuidadores estejam atentos e sensíveis aos sinais manifestados”, destacam. 

 

 

Diálogo é fundamental 

Para a psicóloga Melissa Carla Streck Bundt, 46, o diálogo é a base para as transformações de cada fase do desenvolvimento humano.  De acordo com a profissional, ao mesmo passo em que os avanços tecnológicos tomaram grande proporção, cresceu, também, a falta de interação e o isolamento social. “Nesse sentido, a falta de diálogo é um agravante para o desequilíbrio psicológico, como no caso do suicídio, pois o isolamento social coloca o ser humano em uma condição extrema de introspecção emocional”, explica. 

 

 

Pesquisas realizadas pelo Guia do Estudante, da Editora Abril, revelam que os jovens dessa geração até assumem que têm algum diagnóstico comportamental, mas, a grande maioria, ainda apresenta dificuldades em procurar tratamento. “O excesso de engajamento com o mundo virtual distancia, e isso pode causar sensação de solidão quando não se encontram no ‘mundo real’ as mesmas facilidades instantâneas da internet”, avalia.  


 

A psicóloga Claudete Ventura Pedrão, 58, especialista em Famílias e Casais, concorda, afirmando ainda que a Geração Z é um dos grupos mais atingido pelo excesso de conexão nas redes sociais, e que, por isso, é mais suscetível ao desenvolvimento de doenças mentais.  

 

“No mundo virtual, tudo parece ser mágico e fácil, diferente da realidade, podendo acarretar em frustração e, consequentemente, podendo resultar em crises de ansiedade e depressão. A demora pela procura de ajuda, que também é uma característica desta geração, contribui para que busquem soluções imediatas, ficando propensos a ideias suicidas ou tentativa de suicídio”, explica. 

 

 

Um perfil diferente para o mercado de trabalho 

Por outro lado, há profissionais da área de Recursos Humanos que afirmam que essa geração coleciona aspectos positivos para o mercado de trabalho. Sandra Visoski Morschel, 44, gerente de RH e especialista em Gestão de Pessoas e Carreira, considera que esse grupo busca muito além de uma proposta salarial: para eles, o trabalho precisa estar atrelado a oportunidades que favoreçam seu crescimento, proporcionem autonomia e estejam alinhados com seu propósito de vida.  

 

 

“É uma geração fluída, com perfil diferenciado e crítico, geradora de criatividade e inovação, de entrega objetiva através da tecnologia, mas que mantém a mente aberta a novas experiências e aprendizados, trazendo para as empresas um grande desafio na retenção desses talentos, que são inquietos, desacomodados e ansiosos por resultado rápido. É preciso incentivar suas habilidades, adaptar a linguagem, gerar propósito, estimular e receber com bons olhos as ideias inovadoras e de transformação que essa geração nos traz”, defende. 

 

 

Renata Batista Cabral, 47, proprietária de uma agência de marketing estratégico, entende bem essa realidade. Em casa, ela é mãe de Lívia, da Geração Z, e de Sofia, da Geração Alpha (nascidos a partir de 2010). No trabalho, ela coordena jovens de diferentes idades, e afirma que fazer uma boa gestão desses talentos, sabendo orientar e delegar, é um grande desafio.   

 

“Sinto que na Geração Z há uma aversão ao conservadorismo das práticas de trabalho e da hierarquia vertical, acompanhada de falta de maturidade emocional em determinados momentos. Mas, apesar disso, é uma geração com visão muito clara do que quer, buscando empregos que proporcionem a autorrealização, ao mesmo tempo em que apresentam gratidão pelas oportunidades, retribuindo isso ao ‘vestir a camisa’ da empresa”, evidencia.  

 

Renata também afirma que essa é uma geração que valoriza elogios e o incentivo ao estudo, procurando ambientes de trabalho com flexibilidade e que tenham consciência social e ética, ou seja, que reflitam seus ideais. “Por mais que as pesquisas apontem que a alta rotatividade é uma característica da Geração Z, não é essa a realidade que enfrento no meu trabalho. Conto com profissionais que estão comigo há muito tempo e que me proporcionaram ver o lado positivo que também existe nessa geração, como a facilidade que eles têm em ‘pegar as coisas’ e a troca de aprendizado que temos uns com os outros”. 

 

 

NÃO ESPERE O EXTREMO 


Nesse sentido, Lino Vili Moura Ribeiro, 42, médico psiquiatra, explica que, por se tratar de um assunto doloroso e assustador, ignorar as evidências pode acabar sendo o caminho mais fácil para quem tem pensamentos suicidas. “É comum que as pessoas busquem um profissional de saúde nas semanas anteriores à morte, por causas muitas vezes não ligadas diretamente ao desejo de morrer. Então, é necessário que se fique atento a falas do tipo ‘estou cansado’, ‘as coisas perderam o sentido’, ‘a vida está sem graça’. Em muitos casos, isso pode ser um indício de que aquela pessoa está perdendo a vontade de viver”, relata.  
 

O especialista destaca as características dos sintomas depressivos, que também se fazem presente nesse tipo de situação: 
- Tristeza 
- Desânimo 
- Isolamento 
- Aumento ou perda de apetite 
- Aumento ou perda de sono 
- Ansiedade exagerada 
- Falta de motivação para as atividades do dia a dia ou perda de prazer em atividades antes consideradas prazerosas  
 
Sobre o tratamento, Lino afirma que o diagnóstico é o fator principal, já que a depressão não é a única condição associada ao suicídio. Em casos mais graves, uma hospitalização poderá ser necessária, até que não haja mais risco de suicídio por parte do paciente. “A eliminação completa dos sintomas e o uso de medicação por tempo prolongado são as únicas maneiras de se reduzir a chance de retorno da doença. Além disso, há medidas que também são importantes, como psicoterapias, modificações no estilo de vida, alimentação saudável e exercício físico. Cada pessoa é um universo de características interagindo e determinando o conjunto final. Se a pessoa não for vista dessa forma, qualquer tratamento será condenado ao fracasso”, considera.  
 

 
O que diz a Geração Z  

Bruna Rossi, 23, modelo e consultora óptica 

 
 
"A tecnologia é uma aliada na minha evolução e no desenvolvimento das minhas habilidades. Ela me ajuda em vários sentidos, tanto para eu me aperfeiçoar no que faço quanto na divulgação do meu trabalho, pois, através da internet, minha carreira de modelo tem mais amplitude, podendo alcançar pessoas e lugares que eu nunca imaginei que pudesse ser possível”. 
 
 

Arthur Elias Paschoal, 17, estudante do ensino médio 
 
 
"A tecnologia está em todos os lugares, inclusive na programação de computadores, área que eu quero seguir na minha vida. Acredito que ainda vamos ter muitas inovações tecnológicas no futuro e eu quero estar por dentro de todas elas. Aprender novos recursos é uma coisa muito simples para a nossa geração. Nós nascemos em meio a tudo isso, como também outras gerações já estão nascendo inseridas nesse meio, com ainda mais facilidade que as anteriores”. 
 
 
 
Eduarda Brendler, 23, estudante e bartender 
 
 
"Ter nascido entre o final de um milênio e o começo de outro foi como vivenciar um momento de transição muito forte na nossa geração, pois, enquanto a internet estava começando a ganhar espaço, a gente ainda corria na rua e andava de esqueite. Passei boa parte da infância sem celular, então, tivemos que, muito rápido, nos adaptar a essa nova realidade, por isso, temos essa habilidade de aprender rapidamente. Basta um pouquinho de curiosidade e logo a gente domina o assunto (instrumentos e idiomas são meu forte).  
 
Como consequência da tecnologia e o jeito instantâneo de pesquisar e consumir, também veio o imediatismo, e qualquer coisa que nos faça esperar nos causa impaciência. Tudo anda mais rápido, e a gente segue o fluxo com medo de ser deixado pra trás, assim, acabamos tentando sempre estar um passo à frente, prevendo e solucionando problemas sem que eles sequer aconteçam. 
 
No meu ponto de vista, essa é uma geração mais crítica e, com esse pensamento, abraçamos discussões sociais, querendo ouvir e ser ouvidos. Assim, nossa mente foi cada vez mais se abrindo, permitindo que a gente começasse a sair da nossa bolha”. 
 
 

Marry Estery, 27, editora de livros e mentora de marketing digital 
 
 
"A minha geração tornou-se aquilo que chamamos de imediatista, uma geração que quer tudo para ontem, mas não nos culpo. Nossos pais, em nossa idade, estavam comprando carro, casa e construindo família. Já eu, sou solteira, quero viajar muito e cuidar das minhas empresas. Também penso em formar família e ter filhos, mas conciliando sempre com a carreira. Até hoje, tudo o que aprendi foi através de tutoriais e colocando a cara a tapa. Acho que esse é o principal elemento da nossa geração, que cansou de depender dos outros. Mas, ao mesmo tempo, sei que isso é assustador, pois estamos querendo sempre mais coisas e ficamos ansiosos pelo futuro”. 
 
 

Ricardo Goulart, 25, videomaker estratégico 
 
 
"Dentre as principais características da Geração Z, a que mais de identifico é a comunicação. Eu amo me expressar e falar com pessoas que estão prontas para escutar. Aprendi com o tempo a falar somente o necessário, mas sempre falar quando preciso. Noto com muita frequência esse fator comunicativo no meu dia. Se não tem ninguém pra eu conversar ao meu lado, eu converso sozinho. E acredito que eu amo vender por conta disso, já que é impossível vender algo sem ter que falar com alguém. Também acredito que é pela falta de comunicação que ainda existem muitos conflitos no mundo e, por isso, pratico sempre”. 
 
 
 
Entenda as gerações 
Baby Boomers 
Entre 57 e 75 anos: em geral, criados com muita rigidez e disciplina, cresceram focados e obstinados e valorizam muito o trabalho, a família, a realização pessoal, a estabilidade financeira e a busca por melhores condições de vida. 
 
Geração X 
Entre 41 e 56 anos: em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, as pessoas dessa geração dão valor ao diploma formal e à capacitação e estabilidade profissional. 
 
Geração Y ou Millennial 
Entre 25 e 40 anos: considerada criativa e alinhada às causas sociais, não tem como prioridades o trabalho intenso, a formação de uma família e a busca por estabilidade na carreira. São acostumados com a tecnologia, são multitarefas, impulsivos, competitivos, questionadores e desejam rápido crescimento profissional e financeiro. 
 
Geração Z 
Nascidos a partir de 1995: são nativos digitais e aprendem de várias maneiras, usando múltiplas fontes e objetos de aprendizagem. Costumam acompanhar os acontecimentos em tempo real, comunicam-se intensamente por meios digitais e estão sempre on-line. Em termos de comportamento, tendem a se engajar com questões ambientais, sociais e referentes à identidade. 
 
Geração Alpha 
Nascidos a partir de 2010: com muitos estímulos e acostumada a usar meios digitais para se entreter e buscar informações, essa geração requer uma educação mais dinâmica, ativa, multiplataforma e personalizada. Tem como características a flexibilidade, autonomia e um potencial maior para inovar e buscar soluções para problemas de forma colaborativa.  





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