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Reportagens EDIÇÃO 10 - FEVEREIRO 2008

Vida nova a uma nova mulher


Gabriela é a primeira cachoeirense a trocar de sexo por um programa do Hospital de Clínicas custeado pelo Governo do Estado

 

A mulher bonita que ilustra esta página já foi homem. Há cinco meses, Gabriela realizou o sonho que alimentava desde os seis anos de idade: fazer uma cirurgia para mudar de sexo e finalmente transformar seu corpo de homem em um corpo de mulher. Hoje, a jovem de 23 anos, batizada com o nome de Evandro, se diz uma mulher completa. Entretanto, a caminhada até chegar a realização foi longa. Primeiro a descoberta - ainda na infância - de que era diferente dos outros garotos, a auto-aceitação, a aceitação da família e depois uma série de fases que passaram pela troca do vestuário, implante de próteses de silicone nos seios e então a preparação para a transgenitalização que lhe daria os genitais de uma mulher.
Gabriela foi a primeira cachoeirense a realizar esse tipo de operação pelo Programa de Transtorno de Identidade de Gênero custeado pelo Governo do Estado. Foram dois anos e oito meses de viagens a cada 15 dias a Porto Alegre, onde é oferecido o tratamento, até que uma equipe de psicólogos, psiquiatras, endocrinologista e assistentes sociais a liberassem para fazer a cirurgia irreversível.



Gabriela: realizada com a cirurgia para troca de sexo

“Pensei em desistir muitas vezes. Essas viagens eram muito cansativas, mas tive força de vontade e levei o tratamento até o fim”, conta. Foram cinco horas de cirurgia que resultou em 300 pontos e sete dias de internação para a recuperação.

A operação foi feita no Hospital de Clínicas na capital gaúcha, único a fazer esse tipo de procedimento em todo o estado. As viagens para atendimentos de quem não mora na capital são custeadas pelo SUS. De acordo com o chefe do serviço de urologia do Hospital de Clínicas de Porto alegre, médico Walter José Koff, o Clínicas já realizou 120 cirurgias de troca de sexo e possui em seu cadastro mais 187.
No entanto, Koff explica que nas avaliações psiquiátricas e psicológicas nem sempre os interessados seguem na fila para a cirurgia, já que o transexualismo precisa ser claramente detectado. Koff estima que nos próximos dois anos sejam realizadas de 80 a 90 transgenitalizações. O chefe de urologia do Clínicas ressalta que os resultados da cirurgia são altamente benéficos aos transexuais. "Há uma clara satisfação nos âmbitos familiar, afetivo, vida profissional e inserção social, além da melhora na qualidade de vida. A cirurgia de troca de sexo é a única solução no momento para a doença do transexualismo”, observa.
O programa do Hospital de Clínicas oferece ainda para quem faz a troca de sexo implante de silicone, que Gabriela já havia feito há dois anos em Cachoeira, raspagem do pomo-de-adão, também já realizado por ela, e cirurgia nas cordas vocais para afinar a voz, que mesmo sendo gratuita, Gabriela não pretende fazer. Como a cirurgia proprociona uma mudança apenas externa, Gabriela não terá ovários e útero, sendo portanto, estéril. Quanto a vida sexual, ela que tem um companheiro há seis anos, diz que se sente realizada e que tem relações e orgasmos como qualquer mulher.
O último passo para a transformação ser concluída é trocar o nome nos documentos. Ela pretende entrar em breve com o processo solicitando a alteração oficial do nome Evandro para Gabriela.

 

 

DIFERENTE - A vida dupla, em que às vezes se sentia mulher, outra vezes se sentia homem, sempre incomodou Gabriela. Para se entender, ela buscou na adolescência tratamento com psicólogos. Essa incerteza sobre sua própria identidade levou a jovem à depressão e só conseguiu se aceitar com apoio da família, especialmente da mãe, que sempre esteve ao seu lado, inclusive durante todo o período de acompanhamento médico até a realização da cirurgia para a troca de sexo. A fase mais difícil foi durante o período de escola, onde por maldade de colegas passou por constrangimento e humilhações. “Foi a fase mais traumática. Procuro nem lembrar dos momentos ruins, tento apagar o sofrimento da minha memória”, revela.
Durante a adolescência, ela morou com a avó para evitar desentendimentos com o pai, que no início não aceitava e acabava culpando a mãe pelo que estava acontecendo. “Ele foi aceitar anos depois e foi graças ao apoio da minha família que consegui me encontrar e passar por todas essas fases. Hoje levo uma vida normal. Não digo que sou outra pessoa, só estou melhor comigo mesma. Se me olho no espelho vejo que nada mudou, afinal desde a infância me senti uma mulher aprisionada no corpo de um homem”, observa.
Seu principal projeto para 2008 é ir embora de Cachoeira para buscar melhores oportunidades em outra cidade. “Fiquei aqui até hoje por causa da minha família, mas quero ir embora para que eu possa ser, assim como a maioria, somente mais uma anônima. Não quero mais caminhar na rua e ser apontada. Os cachoeirenses têm que julgar menos a vida dos outros e viver mais a sua vida, afinal ninguém sabe o que vai vir pela frente”, conta Gabriela. “Quando falo em oportunidades, me refiro a emprego. Hoje, para quem é transexual, só resta ser prostituta ou cabeleireira. Eu optei pela profissão de cabeleireira e gosto do que faço, mas acho que isso tem que mudar. Temos que ter mais espaço e oportunidades também”, conclui a jovem.

 



Entenda o que acontece com um transexual

. Transexualismo pode parecer à primeira vista semelhante ao homossexualismo e/ou travestismo, mas há algumas diferenças.

. Homossexuais não têm dúvidas ou desconforto quanto ao seu gênero ou sexo, apenas possuem preferência por pessoas do mesmo sexo.

. Travestis são homens que se vestem de mulher, podem modificar seu corpo com silicone, mas não sentem desconforto com seu sexo anatômico.

. Transexuais são pessoas que sentem intimamente que pertencem ao sexo oposto ao seu sexo anatômico. O transexualismo foi avaliado em 1997 pelo Conselho Federal de Medicina como uma doença de transtorno de identidade de gênero, ou seja, o indivíduo sente que pertence ao sexo contrário do seu sexo anatômico. Os distúrbios causados pelo transtorno podem levar os transexuais à automutilação e suicídio.

 

 

Memória
Em 2005 Gabriela, tornou-se conhecida em Cachoeira do Sul após ser barrada em um baile da Semana Farroupilha por ser homem e estar vestida com a indumentária típica feminina. Na época ela dividiu a opinião dos cachoeirenses e apesar de ter registrado ocorrência na Delegacia de Polícia de Pronto-atendimento (DPPA) por preconceito e discriminação, acabou desistindo de processar o CTG Estância do Chimarrão, onde o caso aconteceu. Gabriela disse não querer representar contra a entidade para preservar sua imagem e evitar mais escândalos. Nesse ano, ela já estava na fila aguardando a cirurgia para transgenitalização.

 

 

Outro transexual cachoeirense foi operado em janeiro

 
Outra cachoeirense de 24 anos, que prefere ser identificada somente pelas iniciais N.E.M., fez a cirurgia para a troca de sexo no último dia 4 de janeiro. Assim como Gabriela, ela passou por avaliação durante dois anos e oito meses até ser liberada para fazer o procedimento. “Ainda estou na fase de recuperação, mas deu tudo certo. Estou muito feliz”, observa N.E.M., que hoje está morando em Porto Alegre. N.M. e Gabriela não são os primeiros casos de troca de sexo feita por cachoeirenses. Em 1998, o transexual Gilmar Porto Neto, que usava o nome Alessia, realizou a mesma operação na Espanha. O Jornal do Povo noticiou o fato no dia 3 de janeiro daquele ano.
 Os interessados em ingressar no programa para transexuais do Hospital de Clínicas devem procurar os postos de saúde da sua cidade. Como o programa é custeado pelo Governo do Estado, só podem se candidatar pacientes gaúchos. A cirurgia só é realizada em maiores de 21 anos, porém os menores podem ter acompanhamento do programa.
JUSTIÇA - Em agosto do ano passado, o juiz federal Roger Raupp Rios, do Tribunal Regional Federal do Rio Grande do Sul, concedeu sentença favorável aos transexuais, garantindo cirurgias de troca de sexo através do SUS sem custos para o paciente nos hospitais conveniados em todo o país. A decisão foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal em dezembro do ano passado, considerando que os gastos extrapolariam o orçamento da União para despesas com saúde. Em hospitais particulares, o custo aproximado somente da transgenitalização é de R$ 20 mil.

 

 

FIQUE DE OLHO

Roteiro da transformação

 

O processo de mudança envolve três áreas do corpo:

 

1) Cordas vocais
São encurtadas para deixar a voz de quem nasceu com características masculinas mais aguda. O pomo-de-adão (saliência da cartilagem da tireóide presente nos homens) é reduzido para ficar menos visível. Um fonoaudiólogo faz tratamento para que o paciente ganhe entonação e ritmo de voz feminino. Para as mulheres, na maioria dos casos são utilizados hormônios para deixar a voz mais grave.

 

2) Mamas
Para homens que mudarão de sexo são implantadas próteses de silicone, já para as mulheres que se tornarão homens são retiradas as mamas.

 

3) Genitais
A mudança de homem para mulher é menos complexa, envolvendo uma cirurgia de cerca de quatro horas. No caso de pacientes com genitais femininos, podem ser necessárias até cinco cirurgias.

 

 

De homem para mulher

 

. O cirurgião retira a parte interna do pênis deixando apenas a pele. Ela recebe um aumento por meio de um retalho de pele perineal que, invertido, dará origem à vagina.
. Durante alguns meses, o paciente usa um molde na vagina até que o órgão esteja adequado para a relação sexual.
. A uretra fica mais curta e situada na entrada da nova vagina, e o paciente urina normalmente

 


1 - uretra  2 - glande  3 - testículos

 

De muher para homem

 

. A paciente é operada para a retirada do útero, ovários, trompas e vagina.
. Numa segunda cirurgia, é recortado um pedaço de pele e da camada de gordura do antebraço e modelado na forma de pênis. O tecido é mantido por três meses preso ao braço até ganhar vascularização própria e estar pronto para ser implantado.
. Para cobrir o local de onde a pele foi removida é colocado um enxerto com pele retirada da nádega.
. Em outra cirurgia, o novo pênis é implantado onde havia a entrada da vagina.
. Algumas semanas depois, se colocam duas próteses de silicone no pênis para permitir que fique firme. Como são flexíveis, o pênis não fica permanentemente ereto.






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Edição 136 - junho de 2019

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