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Reportagens EDIÇÃO 07 - NOVEMBRO 2007

Das ruas para dentro de casa


Ninguém quer, mas se deparar com um filho usuário de drogas nem sempre pode ser evitado

 

Eu nunca pensei que isso fosse acontecer na minha família! É muito comum ouvirmos afirmações desse tipo, especialmente quando o assunto em pauta são as drogas. É claro que ninguém espera, e muito menos deseja, que um filho, um amigo ou membro da família se torne dependente químico, porém evitar nem sempre é possível. Por isso fica no ar a pergunta: o que fazer quando esse problema sai das novelas, do dia-a-dia do vizinho ou da vida daquele conhecido e vem parar dentro de casa?
Negar o fato ou desacreditar pode até ser uma saída, mas nunca uma solução. A primeira reação dos pais, em geral, é tentar achar culpados. Onde foi que eu errei? Sabia que não devia ter mimado tanto nosso filho! Você nunca deu atenção suficiente a ele! Perguntas e acusações desse tipo são comuns. De acordo com a psicóloga Cecília Chaves, 37 de idade e cinco de profissão, cada caso é um caso, mas quando os pais descobrem que seu filho está usando drogas é importante ter um diálogo franco e ao mesmo tempo acolhedor.
“É preciso pelo menos nesse primeiro momento deixar os sentimentos de culpa e falhas de lado. Isso não vai ajudar em nada. O filho precisa ver que não estará sozinho na luta para se livrar do vício”, observa Cecília. Manter a proximidade e o diálogo com os filhos é apontado por especialistas como a melhor forma de prevenir que os adolescentes venham a consumir drogas. “O distanciamento das relações abre espaço para carências, segredos e companhias não tão saudáveis e isso pode vir a desencadear o uso de entorpecentes”, explica a psicóloga.

Prevenção: para Cecília, diálogo e amor não deixam espaço para as carências que podem levar o filho a usar drogas

 

 

Um dos erros mais comuns ao se ver em uma situação de drogadição dentro de casa é estigmatizar o jovem, chamando-o de maconheiro, marginal ou drogado. Não é uma questão de aprovar a atitude, entretanto recriminar não é a melhor saída. Nessa hora dar apoio é fundamental para ajudá-lo a se livrar do vício. “Antes de qualquer atitude drástica, pare para ouvi-lo e tente compreender o que está acontecendo. Isso não significa negar ou fazer vista grossa para o problema e sim apenas encará-lo”, comenta Cecília.
A realidade é que a cada dia a droga se aproxima mais dos jovens exigindo dos pais cuidado redobrado. Essa aproximação que muitas vezes começa com drogas lícitas como o cigarro e o álcool acontece em festas, através de amigos ou até em lugares menos suspeitos como na própria escola. Estima-se que em Cachoeira do Sul existam cerca de 3 mil usuários de crack, uma das drogas mais pesadas que existe. Essa dependência, que atinge na maioria adolescentes e jovens, não escolhe cor, credo ou classe social. Do rico ao pobre, branco ou negro, as drogas vêm transformando a rotina de muitas famílias. Diversas iniciativas estão sendo tomadas para reduzir esses números, mas as estatísticas indicam que a caminhada tende a ser longa, um problema não só de Cachoeira, mas de todo o país.


Ensinar um filho a não usar drogas não é tão simples quanto ensiná-lo a amarrar os sapatos ou fazer o dever de casa. Não existe um manual com métodos práticos e infalíveis para evitar o abuso de entorpecentes dentro de casa, mas algumas atitudes podem prevenir que esse problema venha acontecer. Os pais devem aproveitar as oportunidades para conversar sobre os riscos relacionados ao uso de drogas e se possível, conversar francamente sobre o assunto. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, têm mais chance de usar drogas as pessoas mal informadas. Muitos dos usuários de crack, por exemplo, não sabiam que ele causava danos cerebrais irreversíveis quando experimentaram a droga pela primeira vez. Muito menos que essa é uma das drogas de maior poder viciante. Fazer com que seu filho tenha informações já é um passo.

 


Jota: drogas levaram 12 anos da sua vida

"A verdade é uma coisa que ninguém quer ouvir e para escapar muitas vezes finge não saber. Acho que minha mãe soube desde o primeiro dia, mas como continuei durante todo o vício um filho muito carinhoso ela preferia não enxergar. Minha família só admitiu que eu era viciado e precisava de ajuda nos últimos três anos da minha dependência."

Vida nova

 

Jota foi viciado durante 12 anos, mas decidiu dar a volta por cima e hoje é um profissional bem sucedido


 Durante 12 anos, o assistente de comunicação e expansão José Jernandes Camargo, mais conhecido como Jota, 36 anos, ficou envolvido com drogas. Da bebida às drogas mais pesadas, ele passou uma por uma. “Comecei com 15 anos e foi tudo muito rápido, com 16 anos já estava usando cocaína. Minha educação foi muito rígida, especialmente por parte do meu pai. Nunca me deixaram faltar nada, mas havia pouco diálogo. Hoje digo sem medo que essa carência é uma das responsáveis pelo abuso de drogas”, observa.
Como a maioria dos dependentes, Jota se afastou da família. “Isso é fato. Quando se é viciado existe uma necessidade muito grande de viver com a droga e um medo ainda maior que a família o prive desse convívio”, conta. A recuperação só aconteceu aos 27 anos, quando Jota sofreu seu segundo princípio de overdose e foi levado para uma clínica de reabilitação. Apesar de achar que o tratamento duraria apenas 30 dias, ele só saiu da clínica após nove meses. “Fui para lá não por vontade, nunca admiti que usava drogas e precisava de ajuda. Se não fosse o apoio e persistência da minha família não tinha me livrado do vício. É claro que o viciado precisa ter muita fé e força de vontade, mas a verdade é que ninguém se livra sozinho das drogas”, diz.
 Hoje, quem o vê bem sucedido, sempre de bem com a vida e cheio de projetos não imagina que tenha vivido esse drama. Há quase 10 anos livre do vício ele diz que não vê problemas em revelar seu passado. “Acho que muita gente pode aproveitar minha experiência e tirar algo de bom. Se tivesse me escondido seria muito pior. Agora levo uma vida normal, mas sei dos meus limites. As drogas me deixaram muitas marcas. Vejo isso principalmente quando, por exemplo, preciso aprender alguma coisa relacionada à informática e minha cabeça falha. Preciso sair um pouco e depois voltar para conseguir entender”, conta.

  

 

 


“Parece um pesadelo”


Essa é a frase que Marilda costuma dizer sobre o sofrimento que as drogas causam na sua família



A droga é um dos problemas, se não o único, capaz de mobilizar e ao mesmo tempo abalar toda a família. Foi isso que ela fez na casa da servidora pública Marilda Pereira Gomes, 44 anos. Ao lado do marido que exerce a profissão de metalúrgico, ela sempre batalhou para sustentar e dar uma educação aos seus dois filhos. Porém esse esforço não desencorajou seu filho mais velho, o Everton, hoje com 19 anos, a não usar drogas. Há cerca de dois anos, a família da servidora vive o drama de ter um dependente químico e pouco poder fazer para mudar isso. “Sempre fomos muito unidos e o Everton sempre foi um bom filho, ele trabalhava e estudava quando descobrimos que ele estava envolvido com drogas.”
A história de dependência do jovem foi mais longe do que o que acontece com a maioria. Para sustentar o vício ele já furtou objetos da própria família e hoje cumpre pena no Presídio Estadual de Cachoeira do Sul por roubo. “Todos os domingos vou levar mantimentos para meu filho, mas só o visitei uma vez. Fiz de tudo por ele e estou disposta a apoiar se ele quiser mudar, mas não entro no presídio porque ele não precisava ter feito nada disso. Ele sempre teve tudo”, conta chorando.
Durante a fase que o filho estava usando drogas e ainda morando com os pais, Marilda engravidou. Hoje, ela tem o terceiro filho, Cauã, de dois meses de idade. “Ele veio para renovar minhas forças. Tento não demonstrar, mas sofro muito com essa situação. Não desejo que nenhuma mãe ou pai passe por isso. Nunca sequer imaginei que poderia acontecer com a minha família. É muito difícil ver que como mãe de certa forma fracassei na criação do Everton”, diz. A promessa de que vai mudar quando sair da prisão, faz Marilda viver com a esperança que um dia sua vida e da sua família voltem a ser como era há pouco mais de dois anos.
 






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