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Reportagens Edição 01 - MAIO/2007

Vida de Pinóquio


Em nossa sociedade mentir tornou-se banal. Por isso, aceitamos com alguma naturalidade "pequenas" mentiras.

O ser humano é naturalmente mentiroso. É o que diz o cientista David Livingstone Smith, em seu livro "Por que mentimos - Os fundamentos biológicos e psicológicos da mentira" (Editora  Campus/Elsevier). Absolutamente todos nós mentimos, mentiras inocentes ou mais perversas. "Papai Noel vai deixar seu presente na árvore", "você veio da cegonha", e por aí vai. Desde cedo, escutamos mentiras e acabamos aprendendo a encará-las como algo normal. Por mais que procuremos nos vestir de santos, a fim de travestir nossas mentiras, arrumando justificativas para elas, é importante ter consciência de que nenhuma mentira é justificável, até mesmo aquelas necessárias.

A capacidade de enganar ajuda os organismos a sobreviverem. Não só os humanos mentem. Flores se passam por vespas fêmeas para atrair os machos, animais se disfarçam de folhas e galhos para se protegerem, cobras não venenosas imitam as venenosas, vírus enganam o sistema imunológico de seus hospedeiros, etc.

Mentimos por várias razões: quando receamos que a verdade traga conseqüências negativas, quando queremos passar a imagem de nós próprios melhor do que a verdadeira, para obter ganhos, por coação ou por razões patológicas. "Na realidade, a sociedade impele-nos a mentir, e, freqüentemente, quem mente acaba por obter alguns ganhos, no entanto, acho que devemos resistir à tentação de considerar a mentira como algo positivo", aconselha o psicólogo clínico Rui Manoel Carreteiro.

"Minto para esconder algo que não quero falar, e, também, quando alguém me conta uma coisa e pede para eu não falar para mais ninguém. Se me perguntarem, tenho que mentir, pois não vou contar um segredo que não é meu", revela a estudante Bruna Soares, 16 anos. Mesmo admitindo mentir, Bruna diz preferir que lhe falem sempre a verdade. "Não queria que mentissem para mim, mesmo dizendo ser para o meu bem. Se é para sofrer, prefiro que seja de uma vez. Quanto mais tempo pior".

Em nossa sociedade, mentir tornou-se banal. Por isso aceitamos com alguma naturalidade "pequenas mentiras". A cada quatro vezes que as pessoas entram em contato com outras, pelo menos uma mente. Significa que mentimos em 25% do tempo. A descoberta está no livro "Como identificar a mentira", da psicóloga e professora Mônica Portela, lançado pela editora Quality Mark. As mentiras começam nos falsos elogios, do tipo "essa roupa fica tão bem em você", e podem tomar grandes proporções. Até os pais, sem perceberem, ensinam os filhos a mentirem, como quando não querem atender alguém e os pedem para dizer que não estão em casa ou quando falam que o filho deve dizer que gostou do presente quando, na verdade, não gostou.

Crianças costumam ser rotuladas de ingênuas e puras, porém não escapam da mentira. Uma criança de dois anos já mente, mas muito mal. Por exemplo: quando não querem comer dizem que a comida está ruim. Entre os três e quatro anos, aprendem a ter um controle maior sobre seus gestos, posturas e expressões faciais. As crianças, geralmente, mentem por medo de sofrerem alguma discriminação, quando temem serem rejeitadas pelos colegas.

Em seu livro, Mônica Portela diz, também, que as crianças têm mais facilidade do que os adultos para perceberem uma mentira. Não adianta tentar esconder de crianças a verdade. A dissimulação tende a gerar ainda mais insegurança. Com quatro a cinco anos, as crianças já sabem colocar os pais contra a parede.

A mentira ainda pode surgir como uma dependência, quando dita de uma forma compulsiva. "Os dependentes sabem que estão mentindo, mas não conseguem controlar, num processo que surge de uma forma muito semelhante ao do vício do jogo ou à dependência de álcool ou de drogas. O tratamento passa, geralmente, pela realização de uma terapia psicológica", explica Rui Carreteiro.

Algumas pessoas mentem melhor do que as outras, pela mesma razão que alguns jogam futebol melhor do que outros - por treino, hábito e aperfeiçoamento. Alguns sentem maior repúdio à mentira, logo irão evitá-las (neuroses), enquanto outros sentem uma atração particular por ela (psicopatia). Até para nós mesmos, mentimos. Às vezes é importante para superar certas verdades, mas nunca saudável.
Livingstone, em seu livro, diz que a sociedade é uma rede de mentiras e enganos, que desmoronaria se fosse honesta. Rui Carreteiro acredita que realmente haveria alterações radicais. "Acredito no desmoronamento, sobretudo, porque há mentiras que se apóiam noutras e vão se construindo níveis mais complexos - como uma habitação que começa nos alicerces e termina no telhado. Se os próprios alicerces são mentira, quando os alicerces se quebrarem, toda a habitação irá atrás.

"Não queria que mentissem para mim, mesmo dizendo ser para o meu bem. Se é  para sofrer, prefiro que seja de uma vez. Quanto mais tempo pior"
Bruna Soares

Mentira ou apenas omissão?
A presidenta da Associação dos Psicólogos de Cachoeira do Sul, psicóloga Geogina Teixeira, acredita que a mentira está cada vez mais presente no dia-a-dia das pessoas. Para ela não há como escapar, todo mundo um dia mentiu ou vai mentir. "Freqüentemente também omitimos situações ou informações para nos preservar. Se alguém de pouca intimidade pergunta se está tudo bem, instintivamente nós respondemos que sim, quando na realidade não está, mas não queremos nos expor revelando o que nos incomoda", observa Georgina.
A psicóloga ressalta a existência do vício da mentira com causas patológicas. "Já tratei muitos pacientes com este problema. Eles mentem e também passam a acreditar na sua própria mentira. Muitas vezes criam e inventam situações para fugir dos seus problemas", comentou. Para ela o pior tipo de mentira é quando é dita para tirar vantagens de familiares, colegas de trabalho ou até mesmo de amigos. "Apesar de conviver muitas vezes com mentiras, acredito que o melhor é sempre falar a verdade, pois podemos criar uma situação ilusória e virmos a nos dar mal no futuro", pondera a psicóloga.
Psicóloga Georgina Teixeira

Principais sinais da mentira:
> Esconder a boca com a mão na hora que está mentindo
> Manter o dedo médio em riste ao conversar
> Exagerar nos gestos de automanipulação, como mexer nos cabelos, coçar a orelha e nariz etc
> Fazer gesto contrário à fala, como mexer a mão para trás ao falar de algo que ainda vai acontecer
> Desviar o olhar enquanto mente. A pessoa pode também piscar mais que o normal
> Levantar ligeiramente um dos ombros ao responder com falsidade a uma pergunta
> Fazer gesto pequeno ao se referir a algo grande - e vice-versa
> Manter sorriso falso - um dos cantos da boca levanta mais e não há marcas de expressão ao redor dos olhos





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