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Reportagens Edição 04 - AGOSTO/2007

Parto precisa voltar a ser normal


Índice de cesáreas cresceram tanto nos últimos anos que viraram motivo de preocupação para as autoridades de saúde


Depois de muita expectativa, a hora do tão planejado bebê nascer está chegando. Mas uma dúvida ainda persistia na cabeça da mãe: “Vou ter meu primeiro filho de parto normal e agüentar as dores quase insuportáveis que algumas mulheres dizem que sentiram ou faço uma cesárea, apesar de saber que não é uma boa escolha, e me livro do sofrimento das contrações do trabalho de parto?” Depois de pesar os prós e contras de cada parto e saber que estava tudo certo com ela e com a criança para nascer de forma natural, a mãe decidiu: “Vou fazer parto normal”.
A decisão dessa mãe, infelizmente, não tem sido a da maioria das gestantes. Desde o início da última década, os índices de cesárea vem crescendo de forma descontrolada, o que já tornou o Brasil um dos países que mais realiza partos por meio de intervenção cirúrgica. Cachoeira do Sul não é exceção a essas estatísticas. Dos 1.843 partos realizados na cidade nos últimos 18 meses, a taxa de cesariana ficou em 49,4%, enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que elas não devam ultrapassar 15%. Os partos feitos por convênios ou particulares são os grandes responsáveis por esse alto índice. Dos 416 feitos dessa forma no mesmo período, 82% foram através de cesárea. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS) esse índice é bem menor, porém também ultrapassa, e muito, o recomendado pela OMS. Dos 1.427 partos feitos nos últimos 18 meses pelo SUS, 39,9% são cesarianas.
Para reverter esse quadro que se apresenta em praticamente todos os municípios do Brasil, o Ministério da Saúde (MS) está em constante busca de campanhas e iniciativas. O motivo de tanta preocupação é porque o aumento do índice de cesáreas está diretamente ligado ao aumento da mortalidade infantil, por causa dos riscos que o procedimento oferece, como lesões acidentais, reações à anestesia, infecções e hemorragias das gestantes, prematuridade e desconforto respiratório dos bebês. Estudos dos casos de complicações e mortes pós-parto demonstram que as mulheres que fizeram cesariana incorrem em seis a sete vezes mais complicações do que aquelas que tiveram parto normal. Para piorar, o risco de morte por complicações pós-parto é três vezes maior que os nascidos de parto normal. Uma das iniciativas do MS para incentivar o parto normal é o projeto Parto Sem Dor, que prevê entre outras medidas o direito da gestante em fazer anestesia na hora do parto natural. A idéia, porém, ainda não atingiu o efeito esperado.
No Hospital de Caridade e Beneficência (HCB), única casa de saúde de Cachoeira, o parto sem dor não é feito com freqüência. De acordo com a coordenadora do Centro Obstétrico (CO), ginecologista Rosele Salzano, 44 anos de idade e 19 de profissão, a iniciativa é válida, mas pouco ajuda a mãe. “As dores mais fortes acontecem antes do parto, enquanto ela está tendo as contrações, e a anestesia só pode ser dada quando o bebê já está para nascer. Por isso não indico esse procedimento”, comenta. O uso de medicação para aliviar a dor ainda tem sido a alternativa mais buscada. Outra iniciativa importante para incentivar o parto natural foi a liberação da presença de um acompanhante na sala de parto e também no pós-parto da rede do SUS. “Dessa forma a gestante se sente mais segura e encara com mais facilidade as contrações”, ressalta Rosele.


"Dor é inevitável tanto no parto normal como na cesárea"
Rosele Salzano


HCB também entrou na luta para incentivar o parto normal


Há dois anos o HCB vem desenvolvendo um programa de incentivo ao parto normal. As futuras mães participam de pelo menos três encontros durante a gestação para receber orientações e esclarecimento sobre os benefícios do parto normal e os riscos que a cesariana pode oferecer. De acordo com a coordenadora de enfermagem do HCB, enfermeira Fernanda Fontoura, essa é uma forma de reforçar as orientações do médico e mostrar para a mãe que, se tudo está certo, a melhor opção é o parto normal.
“O Ministério da Saúde cobra dos hospitais a estagnação dos índices de cesárea. Aqui no HCB, por exemplo, existe um sistema de controle do número de partos naturais e cesáreas realizados por cada médico. Se esses números sofrem alterações, a direção chama a atenção do profissional e verifica o que está acontecendo”, ressalta Fernanda. A preocupação com esse aumento dos índices de cesárea é tão grande que acaba indo além do setor público e de instituições filantrópicas, como o HCB. A Fundação de Seguridade Social (Geap) é uma das entidades particulares que se engajou na luta.  Para contribuir com a redução de cesáreas, ela oferece gratificação para os médicos que realizarem mais partos normais para os planos de saúde dos funcionários federais.


O pré-natal é  fundamental em todas as gestações


O pré-natal é a base para um parto tranqüilo e bem sucedido, pois é na visita mensal ao médico que a gestante tem o direito a receber todas as informações sobre sua gravidez e ser orientada sobre todos os passos do parto. Embora durante o pré-natal não se tenha, na grande maioria dos casos, a indicação de que o parto será ou não normal, em algumas situações é possível saber de antemão o que será mais conveniente. Mesmo que a indicação prévia do médico seja pela cesárea, a gestante tem o direito de saber por que não pode se submeter ao parto normal e todos os benefícios e prejuízos que cada tipo de parto poderá lhe trazer. Preparar-se é, antes de tudo, informar-se, participar, colaborar. Após um pré-natal bem feito, estando bem preparada tanto física quanto psicologicamente e podendo contar com o apoio do marido - ou companheiro - e da família, a mulher está pronta para ter seu bebê da melhor maneira possível.


Os mitos que cercam o parto normal


. Parto normal não é sinônimo de fortes dores. Hoje existem muitas técnicas para aliviá-las, além da medicação que as gestantes recebem logo que dão entrada no hospital
. Hoje, medidas que causavam pavor às mães, como o enema (lavagem intestinal) e a tricotomia (raspagem dos pêlos pubianos), não são mais procedimentos de rotina
. A idéia de "uma vez cesárea, sempre cesárea" tem sido desmistificada já que o procedimento realizado há mais de dois anos não contra-indica parto normal desde que as outras condições maternas fetais estejam perfeitas
. Cada mulher reage de um jeito diferente ao parto, então não é só porque uma amiga diz que sofreu muito significa que a outra também vai sofrer
. A cesariana como procedimento indolor é um outro grande mito. O corte geralmente dói de forma contínua por algumas semanas exatamente quando a mãe precisa estar bem para cuidar do bebê. É uma cirurgia de grande porte onde se corta sete camadas de tecido e mesmo anestesiada pode-se sentir todo o processo de abrir e mexer com o bebê e com o útero, sensação que pode ser bastante aflitiva para  algumas mulheres. Além disso, associa-se os riscos do procedimento.




Quando fazer cesárea é inevitável

. Posição inadequada da criança (o bebê poderá estar sentado ou atravessado no abdômen da mãe)
. Duas ou mais cesarianas ou uma realizada há menos de dois anos
. Doenças maternas, omo herpes genital em atividade, HIV positivo, hipertensão severa com risco de convulsão (pré-eclâmpsia ou eclâmpsia) ou cirurgias uterinas prévias (retirada de miomas)


Outras indicações só podem ser identificadas na hora:

. Ausência de dilatação adequada do canal cervical, ou a bacia da mãe não permitindo passagem para o feto (desproporção céfalo-pélvica)
. Descolamento prematuro da placenta (com hemorragia, grave para a mãe, e falta de oxigenação do feto)
. Diminuição da oxigenação, o que começa a causar sofrimento fetal
. Deslocamento de cordão ou alguma parte fetal durante o trabalho de parto


O medo da dor é o vilão da estória


Mitos que cercam o parto normal estão fazendo com que mesmo desnecessariamente a mãe opte pela cesárea


 O aumento nos índices de cesárea traz um pergunta: por que as gestantes não querem mais se submeter ao parto normal? De acordo com a coordenadora do setor de obstetria do HCB, Rosele Salzano, o medo da dor e os mitos que cercam o parto normal são os grandes vilões para que a maioria das mães opte pela cesárea. “Na realidade a falta de informação pode levar a mãe a cometer o engano. Muitas não se dão conta que a dor existe nos dois tipos de parto, só que de maneira inversa. Na cesárea a mãe não sofre nada antes, mas a recuperação após o procedimento cirúrgico é demorada; no parto natural as dores acontecem antes e, logo depois do nascimento, a mãe já está se sentindo bem”, comenta Rosele.
 Além dos benefícios na hora da recuperação, o parto normal é mais vantajoso pois oferece, entre outros, menor chance de hematomas ou infecções e menor risco de complicações para a mãe. “A dor do parto é sábia, vem em ondas e com intervalo de distância entre uma e outra, permitindo que a mãe recupere as forças. As contrações uterinas fazem com que o organismo libere hormônios fundamentais para esse período, os quais agirão até mesmo na amamentação”, observa Rosele.
 Além do medo da dor, a questão cultural também exerce grande influência na hora de decidir sobre qual tipo de parto fazer. Incentivadas por idéias feministas que surgiram principalmente depois da década de 60, algumas mulheres acreditam que passar pelas dores do parto normal é um retrocesso aos direitos conquistados e acabam não levando em consideração os riscos que as cesáreas oferecem. “Além disso, por incrível que pareça, existe um pensamento que fazer cesariana é um sinônimo de status, ou seja, parece chique dispensar o parto normal. Isto é um absurdo”, ressalta a coordenadora do CO.  “O que as mães precisam se conscientizar é que o parto normal oferece mais vantagens do que riscos. Nele o bebê já nasce pronto, sabendo respirar, o leite materno desce mais facilmente e o vínculo entre mãe e filho é estabelecido imediatamente após o nascimento da criança".
 No caso da cesárea, enquanto a mãe vai para o quarto se recuperar da anestesia, o bebê vai para o berçário e os dois só se reencontram cerca de seis horas depois. Além disso, para o bebê, as contrações do trabalho de parto realizam massagens torácicas, permitindo que a respiração do bebê se instale precocemente sem maiores riscos de disfunções, doenças respiratórias, bronquite ou asma. Entretanto, apesar do altos índices de cesárea, não se pode afirmar que em todos os casos a intervenção foi aplicada desnecessariamente. A cesariana às vezes é uma necessidade para evitar riscos de morte ou seqüelas tanto ao bebê como para a mãe.


Médicos e avanços tecnológicos também podem ser culpados
Além da dor, alguns médicos sem ética profissional também são considerados os vilões nessa estória. Muitos estão indicando desnecessariamente a cesárea por ser um procedimento que lhe ocupa menos tempo, o que se torna mais lucrativo. Enquanto ele fará um parto normal, muitas vezes consegue realizar mais de duas cesáreas, já que o procedimento é feito com horário marcado e geralmente não dura mais de uma hora, enquanto o parto normal pode se estender por mais de três horas. Este raciocínio só vale para os atendimentos particulares, já que pelo SUS o médico recebe por horas trabalhadas e não por partos feitos.
Um dos fatores que também vem contribuindo para que o parto normal deixe de ser prioridade são as constantes evoluções na medicina. Na década de 60, por exemplo, as estruturas hospitalares eram muito precárias e o risco de infecção era muito elevado. Além disso, havia pouca aparelhagem e a esterilização dos materiais não era 100% segura. A funcionária mais antiga do CO, Nilva Fontoura Luiz, 69 anos de idade e 45 de profissão, ainda se assusta com o elevado número de cesáreas que vem sendo feito. Defensora do parto normal, ela diz que quando começou a trabalhar, na época como parteira, raramente eram feitas cesáreas.
“Acredito que a cada 50 partos, somente cinco eram feitos com intervenção cirúrgica. Na época, como não existia o SUS e os partos em hospitais precisavam ser pagos, a maioria era feito a domicílio, impossibilitando a realização da cesárea. Claro que não podemos dizer que isso era melhor, porque que os índices de mortalidade eram muito altos na época”, comenta. Porém, a tecnologia não é somente a vilã da estória. Graças a técnicas avançadas, hoje existe a anestesia para o parto normal, que atenua as dores das contrações, e exames como o ultra-som, que ajudam a diagnosticar se o parto normal é viável ou se a cesárea é a melhor alternativa.


Exceção às estatísticas

A dona de casa Melissa Carla Streck Bundt, 31, é uma exceção a essas estatísticas. Apesar de ter feito o parto particular ela optou pelo natural. “Meu primeiro filho, o Felipe, hoje com seis anos, nasceu por meio de cesárea porque ele não estava com a posição certa para nascer e a minha recuperação foi muito sofrida. Então, na minha segunda gestação, decidi que se tudo desse certo iria fazer parto normal”, observa. Duas horas depois de sair do centro obstétrico, Melissa já estava caminhando normalmente e se sentindo bem. “É impressionante: na cesárea, logo que saí da sala sentia muito enjôo e tonturas por causa da anestesia, além da fortes dores. Agora que fiz o parto normal estou me sentindo ótima”, comenta. Melissa ficou durante seis horas em trabalho de parto. Sua filha, a pequena Sofia, nasceu com 48 centímetros e pesando 3,085 quilos. Entre os pontos positivos do parto normal ela ressalta a oportunidade de ficar com a criança já logo após o nascimento, o que não acontece na cesárea, onde a mãe fica na sala de recuperação por cerca de seis horas e o bebê fica no berçário. “Logo que a Sofia nasceu já pude ficar com ela e com o Felipe, não”, comenta.

 Recuperação rápida: Melissa ao lado da filha Sofia e do marido Marcos logo após o parto






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Edição 136 - junho de 2019

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