Conexões que mudam destinos

Jane Berwanger transformou o conhecimento em um legado que ultrapassa tribunais, livros e fronteiras
Da infância na lavoura às decisões que influenciaram a previdência brasileira
Há histórias que impressionam pelo destino. Outras, pelo caminho. A de Jane Lucia Wilhelm Berwanger, 55, pertence às duas categorias. A menina que dividia os dias entre os estudos e o trabalho na roça, em Roque Gonzales, jamais poderia imaginar que, décadas depois, estaria diante de ministros, parlamentares e autoridades defendendo teses capazes de impactar a vida de milhares de brasileiros. O que conecta esses dois extremos, porém, não é o acaso. É a convicção de que o conhecimento pode transformar realidades sem apagar as próprias raízes.
Foi ainda na infância que Jane descobriu o poder da educação. Em uma época em que estudantes da zona rural frequentemente eram vistos com preconceito, encontrou nos livros a ferramenta que mudaria sua trajetória. O desempenho na escola conquistou respeito, abriu portas e mostrou que o estudo seria a ponte entre a realidade em que vivia e os sonhos que ainda nem sabia nomear. Desde então, nunca deixou de aprender. A leitura deu lugar à pesquisa, que evoluiu para a produção de conhecimento compartilhado em 35 livros técnicos, centenas de artigos e mais de dez mil alunos formados ao longo da carreira como professora.
Mas as conexões que realmente moldaram sua história nasceram das pessoas. Dos pais, herdou a coragem e a disciplina. De professores e mentores, a inquietação intelectual e o rigor na busca pela verdade. Nos clientes, encontrou a razão de existir da profissão.
Jane ainda se emociona ao lembrar de uma agricultora que aguardou anos pela aposentadoria. Quando a mulher retornou ao escritório depois de receber o benefício, já não carregava apenas melhores condições financeiras. Havia recuperado a autoestima, a dignidade e a esperança. Foi naquele momento que ela compreendeu, definitivamente, que cada processo representa muito mais do que um número: representa uma vida.
Essa percepção levou Jane a ultrapassar os limites da advocacia tradicional. Em 2019, participou das discussões da Reforma da Previdência e apresentou argumentos técnicos em defesa da aposentadoria híbrida, modalidade que soma períodos de trabalho rural e urbano. A tese ajudou a preservar um direito que beneficia milhares de trabalhadores brasileiros. Curiosamente, uma das conexões mais decisivas de sua carreira aconteceu de forma inesperada, durante um voo para Brasília. Ao decidir se apresentar ao então ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, abriu um diálogo que, poucos dias depois, colocaria o Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário dentro do Palácio do Planalto para contribuir tecnicamente com as discussões da reforma.

Jane Lucia Wilhelm Berwanger
Hoje, à frente de uma estrutura com cinco escritórios, cerca de cinquenta colaboradores e diversos parceiros pelo país, Jane segue acreditando que crescer nunca significou se afastar da origem. Pelo contrário. A infância no campo permanece presente em sua forma de enxergar o mundo. Foi a agricultura que lhe ensinou a resiliência de compreender que nem tudo está sob nosso controle e que persistir faz parte de qualquer colheita. Talvez por isso, mesmo depois de sustentar teses nos Tribunais Superiores, coordenar processos de repercussão nacional e receber reconhecimento internacional, ainda confesse sentir um frio na barriga antes de cada grande sustentação oral. Não pelo cargo de quem a escuta, mas pela responsabilidade com quem espera uma resposta do outro lado.
Casada com Paulo Alex Falcão, 53, agricultor e administrador, mãe de Julieth Berwanger Eckert, 35, e avó de Nolan, 3, Jane acredita que o verdadeiro legado não está apenas nos livros publicados ou nos títulos conquistados, mas nas mudanças concretas que o conhecimento pode provocar na vida das pessoas. Se pudesse reencontrar a menina que caminhava pelos campos de Roque Gonzales, lhe daria um conselho simples, o mesmo que hoje inspira outras mulheres de pequenas cidades a acreditarem em seus sonhos: “Confia e vai.” Porque algumas conexões não apenas transformam uma vida. Elas mudam o destino de muitas outras.