Deus de detalhes

Ciane com o marido Bernardo Bulsing e os gêmeos Otávio e Augusto
Entre diagnósticos e fé, uma história que revela como os milagres acontecem
Os dois milagres da vida da Ciane Bulsing, 31, arquiteta, urbanista e design de interiores, e do Bernardo Bulsing, 34, empresário e engenheiro civil, chegaram no dia 16 de outubro de 2023, em Porto Alegre: Augusto e Otávio. Quem lê apenas esse trecho da história, não imagina o tamanho das batalhas que precisaram ser vencidas para que esse testemunho fosse contado hoje.
Aos 27 anos, o casal decidiu interromper a medicação anticoncepcional. O tão sonhado “positivo” que, segundo a médica, deveria ocorrer naturalmente, em pouco tempo, levou dois anos para ser confirmado. Angustiada pela demora, em uma consulta de rotina com a obstetra, Ciane deu início a uma bateria de exames. E foi aí que surgiu uma descoberta inesperada: o diagnóstico de trombofilia.
“Caso eu engravidasse sem saber da condição, as chances de perder o bebê seriam grandes. Foi naquele instante que começou aquilo que hoje reconheço como o primeiro sinal de cuidado de Deus. Enquanto muitas mulheres descobrem essa condição após enfrentar a dor de perdas sucessivas, comigo aconteceu o contrário. Eu descobri antes. Fui preparada antes. Fui cuidada antes”, reconhece.
Um pedido com clamor
Em fevereiro de 2023, uma semana depois de se formar na faculdade, Ciane foi convidada por uma amiga para participar de uma noite de oração. Enquanto o mundo seguia em seu ritmo habitual, ali tudo era diferente: havia silêncio, espiritualidade e busca. “Naquela noite, fiz um pedido profundo. Pedi que, se fosse da vontade de Deus, que eu me tornasse mãe. Entreguei ali meus medos, minha ansiedade e o desejo mais íntimo do meu coração. No mês seguinte, a resposta chegou”, relembra.
No primeiro ultrassom, apareceu apenas um saco gestacional, sem bebê. Foram dias vividos em oração constante. “Meu clamor era simples e repetido inúmeras vezes: que tenha vida, meu Pai… e se tiverem duas, melhor ainda”, conta ela, que sempre sonhou em ser mãe de gêmeos. No segundo ultrassom, a surpresa! Haviam dois corações sendo gerados.
“Dois milagres. Naquele momento, compreendi que Deus estava nos detalhes. Descobri a trombofilia antes de engravidar. Pedi para me tornar mãe, e a gravidez chegou. Pedi para que houvesse vida, e ela se confirmou. Pedi por dois, e recebi dois filhos”.
O segundo diagnóstico
O acompanhamento era feito em Porto Alegre, mas com 18 semanas de gestação, Ciane decidiu fazer um ultrassom em Cachoeira do Sul. Não era programado, mas ela sentiu que deveria. E foi nesse exame, que mais um diagnóstico se confirmou: o início da Síndrome de Transfusão Feto-Fetal. Na placenta, algumas ramificações sanguíneas dos bebês se fundiram, e eles estavam fazendo uma transfusão de sangue entre eles. A condição era perigosa e poderia levar os bebês a óbito, um por insuficiência cardíaca e o outro por falta de oxigênio e anemia. Dois dias depois, ela realizou a cirurgia fetal. “Quando acordei, senti uma paz indescritível. A certeza de que Deus havia mostrado antes para eu poder salvar meus filhos era muito forte”, relata.

Ciane conta sua história de fé e sucesso
Com o tempo, o colo do útero começou a diminuir, até chegar ao risco de prematuridade extrema. Com 23 semanas, foi necessário colocar o pessário. Como se não fossem desafios suficientes, naquele mesmo ano, seu sogro sofreu um AVC. Ainda assimilando tudo o que estava acontecendo, veio a necessidade da internação de Ciane em Porto Alegre. E ali começou um período de 77 dias dentro do Hospital Santa Casa. “Em nenhum momento senti medo. Mesmo quando os médicos alertavam que eles poderiam nascer a qualquer momento, eu dizia com convicção que não nasceriam antes. Eu repetia que nasceriam em outubro. Eu acompanhava cada semana com gratidão, marcando o tempo que avançava. Cada dia era uma vitória e cada semana alcançada era celebrada com fé”, relata.

As seringas de enoxaparina utilizadas durante o tratamento de trombofilia foram preservadas por Ciane como memória do caminho percorrido até a chegada dos filhos
Nesse período, Ciane reconhece o suporte essencial que recebeu do marido, Bernardo. “Mesmo diante de tantos sustos e das preocupações com o pai, ele assumiu tudo o que precisava ser resolvido fora dali, organizando a rotina e enfrentando cada desafio para que eu pudesse permanecer tranquila. Enquanto eu sustentava a gestação dentro do hospital, ele sustentava tudo do lado de fora”, diz.
Os presentes da vida

O ensaio de fotos de gestante foi feito na Santa Casa, em Porto Alegre, onde Ciane já estava internada há alguns meses
Os meninos, então, nasceram fortes, mesmo prematuros. Pesando mais de dois quilos, respirando bem e sem necessidade de UTI. “Depois de tudo o que vivemos, poder tê-los nos braços e ir direto para casa foi a confirmação daquilo que eu sempre soube no coração”, afirma. Hoje, ela compreende que sua fé começou lá no início, quando descobriu a trombofilia antes mesmo de engravidar e, assim, pôde se preparar para proteger os bebês. “Minha fé cresceu quando pedi a Deus para me tornar mãe e recebi a gravidez. Se fortaleceu quando clamei para que tivesse vida e recebi dois corações. Se confirmou quando a síndrome foi descoberta no início e a cirurgia aconteceu no tempo certo. E permaneceu firme durante cada dia da internação”, confirma.

O milagre mais lindo da vida da Ciane e do Bernardo