Reportagens Edição 121 - janeiro e fevereiro de 2018

Alívio do reencontro


Jovem cachoeirense que escapou da tragédia da boate Kiss relembra episódio

 

A madrugada do dia 27 de janeiro de 2013 marcaria para sempre a memória de familiares de vítimas e sobreviventes do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, que resultou na morte de 242 pessoas e feriu outras 680. Perto de completar cinco anos da segunda maior tragédia da história do Brasil, a viabilidade da construção do memorial no local que ficou marcado pela tragédia nunca esteve tão perto de se concretizar. Para os pais, a melhor situação seria estar junto aos filhos orientando, vivendo seus sonhos, comemorando suas conquistas profissionais e aguardando o fruto dos seus relacionamentos, como família e netos, mas esses sonhos foram retirados de muitas famílias.

 

A jovem Verônica Betat, 24, formanda em Engenharia Agronômica, residindo hoje em Cruz Alta, estaria presente na festa, inclusive com o nome já confirmado na lista de presença, mas, felizmente, o destino não quis assim. Seu namorado, Bruno Mussoi, 26, participou da festa, mas acabou saindo horas antes do incêndio. Eles se conheceram três meses após o ocorrido e se formarão juntos no próximo dia 27, quando completam quatro anos de namoro e exatamente cinco anos depois do acidente.



Marcas do tempo: cinco anos após a tragédia da Kiss, o nascimento da irmã Laura e a graduação, Verônica comemora boa fase ao lado da mãe Elis. “Estou muito feliz”, fala

 

 

CONSELHO DE MÃE

Dizem que Deus fala através das mães. Por mais que os filhos muitas vezes não costumem dar ouvidos a elas, mesmo contrariados, as mães sempre vão orientar para o bem deles e dar os melhores conselhos. Um “não” de Elis Regina Bello Siqueira, 45, corretora de imóveis, à filha Verônica salvou a sua vida.
Como residia à época no Calçadão de Santa Maria, a poucas quadras da extinta casa noturna, em conjunto com mais duas calouras, Verônica combinou de ir ao evento. Já de férias do cursinho pré-vestibular na residência da mãe em Cachoeira, Verônica diz que Elis estranhou ir a Santa Maria nesta época e ao explicar o porquê ela acreditou que não fosse uma boa opção, e foi se mostrando cada vez mais negativa à ideia. Dois dias antes ela foi categórica ao não permitir. “Como nosso relacionamento é de confiança, estranhei e não aceitei aquela imposição, mas não houve conversa e acabei ficando em casa, nada feliz! As outras calouras tiveram motivos diferentes e também não compareceram”, conta.



“... SENTIA ALGO RUIM”

Mãe também de Laura Calvett, 5, Elis conta que assim que Verônica começou a comentar que iria na festa, a sensação ruim predominava. “Quando chegou perto do dia, durante a semana, ela já tinha combinado de ir para Santa Maria com meu afilhado, porém, como eu seguia com aquele aperto no coração e era tão forte, imaginei que algo ruim poderia acontecer na viagem e não deixei que eles fossem... Ela ficou muito chateada e meu afilhado, sem companhia, desistiu também”, recorda-se.



COMO TUDO ACONTECEU


Naquele fatídico dia, a estudante ligou para a mãe, que estava em viagem a Santa Catarina, para avisar que iria ao Balneário São Lourenço com duas amigas, as também estudantes Lariane Inácio e Gabriela Gaira. “Disse a ela, sem querer, que estava bem”, lembra.
Porém, o pai, o advogado Alexandre Betat Basílio, 46, sem saber que Verônica não iria mais, pensava que a filha tivesse viajado para a festa. Quando ocorreu o incêndio na Kiss, Alexandre viveu um martírio ao saber que o nome da filha estava na lista de confirmados. “Ele seguiu uma busca desesperada atrás de mim por ambas as cidades e quando me encontrou, muito emocionado, disse tudo que estava acontecendo. Eu reagi paliativamente, sem acreditar na real proporção da tragédia. Ao chegar em casa e ligar a TV, ver as imagens não me fazia acreditar, pois nós nunca acreditamos que as coisas vão acontecer conosco, e quando se percebe que por tão pouco escapou de uma tragédia com tamanha proporção, era e é inacreditável. Perdi colegas, vizinhos e amigos”, relata Verônica ao lembrar-se emocionada do reencontro com a família.
Ao ver as imagens na televisão, Elis não conteve as lágrimas com a dúvida de que a filha estaria bem. “Como fui viajar e a deixei em casa com dinheiro, pensava que ela podia ter ido, mas graças a Deus ela não me desobedeceu. Voltei para casa e o reencontro foi muito emocionante”, completa.
Acredito que após aquele dia, as relações com as pessoas que amo mudaram de maneira geral. Principalmente quanto a orgulho e tempo, pois muitas vezes deixamos que pequenas coisas afetem nossas relações e isso me parece menor hoje em dia. Também mesmo com menor tempo disponível e estando longe, me esforço para ser presente no dia a dia familiar”. VERÔNICA BETAT



VIDA QUE SEGUE


Com planos de seguir na área acadêmica, Verônica recebe o carinho, a admiração e a torcida da família em cada passo seu. “Estou muito orgulhosa ao ver o sucesso dela e tudo que está construindo. Sou muito grata por ter minhas duas meninas lindas”, diz Elis.



“Admiro a força dos familiares que perderam seus filhos nesta tragédia e acompanho a linda trajetória de alguns, como a publicação do livro ‘Nossa nova caminhada’. Desejo a esses pais muito conforto e amor para continuar”, finaliza Verônica.



A Agronomia da UFSM foi o curso que mais perdeu alunos na tragédia da Kiss: foram 26 mortos no incêndio. Em setembro de 2015, apenas 22 alunos da turma 86 concluíram a graduação. Vítimas da Kiss foram homenageadas durante a solenidade em Santa Maria.

 






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Edição 123 - abril de 2018

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