Reportagens Edição 117 - setembro de 2017

A epidemia DO CÂNCER


Cirurgiã oncológica Ângela Trevisan João desmistifica a doença que causa milhares de mortes no mundo todo

Até meados dos anos 80 pouco se ouvia falar sobre o câncer. Hoje em dia, porém, é muito provável que você tenha algum parente ou amigo ou conheça alguém que esteja lutando contra esta doença. Pode ser até você mesmo que esteja passando por isso. Por mais assustador que pareça, o mundo inteiro está unido para combater o que chamamos de “o mal do século”. Campanhas como o Outubro Rosa, inicialmente lançada nos Estados Unidos na década de 90 e atualmente reconhecida no mundo inteiro, são exemplos da tentativa de informar e conscientizar a população sobre a importância da prevenção e detecção precoce desta patologia.
Contudo, o câncer continua sendo um tabu, uma espécie de sentença, e a maioria das pessoas sequer gosta de mencionar esta palavra. “Informação e conscientização continuam sendo as armas principais contra esta doença tão mortal. Mas nada disso adiantará se não houver, em conjunto, mais ação”, afirma a cirurgiã oncológica ÂNGELA TREVISAN JOÃO, 38, sendo quase 10 anos de atuação na área de cancerologia cirúrgica, que presta mais informações sobre esta patologia para a LINDA.

 

FOTO: VANESSA SOARES

 


1,6 MIL CASOS DE CÂNCER A CADA 24 HORAS

Em 27 de novembro de 2015, no Dia Nacional de Combate ao Câncer, o Instituto Nacional José Alencar Gomes da Silva (Inca) publicou as estimativas para a incidência da doença no Brasil no biênio 2016/2017. Os dados apresentados levantaram uma taxa de aproximadamente 600 mil novos casos de câncer neste período – um aumento de cerca de 20 mil casos em relação ao último registro, de 2014/2015.
Entre os homens são esperados 295,2 mil novos casos e entre as mulheres, 300,8 mil. Excetuando-se o câncer de pele não melanoma (aproximadamente 180 mil casos novos), os tipos mais frequentes em homens são próstata (28,6%), pulmão (8,1%), intestino (7,8%), estômago (6,0%) e cavidade oral (5,2%). Nas mulheres, os cânceres de mama (28,1%), intestino (8,6%), colo do útero (7,9%), pulmão (5,3%) e estômago (3,7%) figuram entre os principais. “Isto quer dizer que ao longo das próximas 24 horas cerca de 1,6 mil brasileiros irão descobrir que têm câncer”, ressalta Ângela.
Até o ano passado, mais de 32 milhões de pessoas viviam com a doença no mundo todo. Desse número, 8,2 milhões morrem anualmente, com base em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o número de mortes por conta do câncer aumentou 31% desde 2000 e chegou a 223,4 mil pessoas por ano no final de 2015. Hoje essa é a segunda causa de mortes no país, mas espera-se que até 2029 a patologia ultrapasse as doenças cardiovasculares.



OS NÚMEROS


. O HCB presta atendimento a pacientes de toda a 8ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), que abrange 12 municípios através do SUS e convênios. Desse total, o Centro Regional de Oncologia (CRO) atente hoje 5 mil pacientes.

. São realizados cerda de 1,5 mil atendimentos mês, sendo 77 primeiras consultas. Destas são em média 38 novos casos confirmados de câncer e 40 cirurgias oncológicas mensais.

. Em torno de 550 pacientes oncológicos recebem tratamento por mês na cidade – destes, 300 passam por sessões de quimioterapias injetáveis e 250 fazem uso de medicação via oral.

. As especialidades são de onco clínico, onco cirurgico, urologia, cirurgia torácica, mastologia, otorrino, com equipe multiprofissional enfermeiros especialistas em oncologia, fonoaudióloga, nutricionista, farmácia clínica e psicologia.
Fonte: Coordenação de Serviços Ambulatoriais do HCB



 

 

 

 

De acordo com a última estimativa feita pelo INCA em 2016, eram esperados 32 mil novos casos de câncer para homens e 20,4 mil para mulheres no Rio Grande do Sul.

 

 

 





SAIBA MAIS

Câncer é o nome genérico dado a uma série de doenças cuja principal característica é decorrente de um descontrolado crescimento de células anormais, que podem se multiplicar e invadir outros órgãos em um processo conhecido por metástase.



CAUSAS DO CÂNCER
Entre os fatores cientificamente comprovados que atuam causando essa desordem celular se destacam a alimentação inadequada, responsável por 35% das mortes pela doença, e o tabagismo, responsável por 30%. Outros fatores associados são o peso corporal (sobrepeso e obesidade), os fatores ocupacionais (agrotóxicos, metais pesados), o consumo de álcool, a exposição solar excessiva e a radiação.
Fonte: www.inca.gov.br


Segundo a médica, apenas de 5% a 10% de todos os casos de câncer são consequência de alterações genéticas hereditárias, ou seja, são transmitidas de pais para filhos. “O caso mais famoso é o da atriz norte-americana Angelina Jolie, que descobriu através de testes genéticos ser portadora de uma mutação em seus genes, o que lhe conferia uma probabilidade de 87% de desenvolver câncer de mama e 50% para câncer de ovário. Com isso, em 2013 a atriz decidiu realizar dupla mastectomia e, posteriormente, a retirada de seus ovários para diminuir o risco de ter a doença”, aponta.



“O dito popular ‘quem procura, acha’, que tantas vezes ouvimos por aqueles que têm medo da doença, a partir de hoje deveria ser complementado por ‘e quem acha, cura’”.
ÂNGELA TREVISAN JOÃO



“A prevenção é a arma mais eficaz na luta contra o câncer”, frisa a cirurgiã oncológica Ângela Trevisan João



2 PERGUNTAS PARA ÂNGELA JOÃO, cirurgiã oncológica

 


Qual é o papel do cirurgião oncológico na abordagem do câncer?

“A cirurgia oncológica é um dos tripés para o tratamento do câncer ao lado da quimioterapia e da radioterapia. Mais de 90% dos casos suspeitos ou comprovados da doença irão passar por algum tipo de procedimento cirúrgico, sendo que a cirurgia continua sendo o tratamento decisório na grande maioria dos tumores sólidos. O grande diferencial do cirurgião oncológico é que ele, pela sua extensa formação, tem um conhecimento detalhado da história natural da doença e da importância do estadiamento dos tumores e, através disso, é capaz de estabelecer uma melhor estratégia terapêutica. Mas, ao contrário do que muitos pensam, o cirurgião oncológico também é parte ativa na assistência integral do indivíduo atuando na prevenção, diagnóstico e acompanhamento do câncer, além dos cuidados prestados ao paciente e seus familiares no que se relaciona à qualidade de vida”.

Como escolher um bom cirurgião?

“É importante buscar referências do profissional que irá ser consultado. Adquira o hábito de checar os currículos médicos, atualmente disponíveis na internet através do site Plataforma Lattes, onde você encontrará além da formação do profissional, a experiência na sua área de atuação, suas especializações e o tempo dedicado à atualização. Outros fatores, não menos relevantes, são a empatia criada na primeira consulta, a forma como você é atendido, a segurança das informações prestadas e a disponibilidade do profissional, todos importantes para uma boa relação médico-paciente, afinal, a partir desse momento ele também irá fazer parte da sua trajetória de vida. Não são raros os casos em que médicos e pacientes tornam-se grandes amigos mesmo após o tratamento da doença”.



BRASIL MAIS VELHO
O país se encontra no meio de uma profunda transição demográfica, como mostra o relatório realizado pelo Banco Mundial em 2011. O estudo prevê que a população idosa brasileira triplicará nas próximas quatro décadas, passando de menos de 20 milhões em 2010 para aproximadamente 65 milhões em 2050. “À medida que a pessoa envelhece, maiores são as chances de contrair uma doença crônica como hipertensão arterial, diabetes, doenças cardiovasculares e câncer”, salienta Ângela.




DICAS PARA SE PREVENIR DO CÂNCER


Prevenção primária

Adoção de um estilo de vida saudável. Ter uma alimentação rica em frutas, legumes, verduras e cereais integrais, evitar alimentos ultraprocessados e açúcares, associar a prática regular de atividade física e manter um peso corporal adequado podem evitar um em cada três dos tipos de câncer mais comuns.

Prevenção secundária

Seguir as orientações do Ministério da Saúde ou do seu médico assistente quanto à realização de exames de rotina, como mamografia, preventivo do colo do útero, colonoscopia e toque retal, individualizando de acordo com as características de cada pessoa.



VOCÊ SABIA?


Uma pesquisa recente mostrou que nos Estados Unidos as pessoas gastam mais tempo à procura de um carro novo do que pesquisando sobre um médico. “Embora no Brasil ainda não tenha sido divulgado nenhum estudo deste tipo, vale a pena nos perguntarmos se estamos, mesmo, gastando tempo suficiente na escolha de um profissional que irá cuidar da nossa saúde”, propõe à reflexão.




SINAIS DE ALERTA


. Emagrecimento involuntário
. Falta de apetite
. Indisposição
Fonte: sbcancer.org.br




 

FIQUE DE OLHO

A maioria dos tumores, em fase inicial, não causa sintomas. “É importante estar atento a alterações do hábito intestinal, sangramentos, dores frequentes, manchas de pele e todo e qualquer problema que faça você suspeitar de que há algo errado”, ressalta a médica. A boa notícia é que para a maioria dos tipos de câncer existe prevenção.





RAIO X


Graduada em medicina e cirurgia geral pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) em 2005, Ângela Trevisan João iniciou sua residência em cirurgia oncológica pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) no Hospital Santa Rita em 2008. Há seis anos faz parte do corpo clínico do Hospital de Caridade e Beneficência (HCB) de Cachoeira do Sul, atendendo o setor público no Centro Regional de Oncologia e o privado na Clínica de Oncologia Vitalità, no Edifício Labor. Atualmente exerce pós-graduação em Nutrologia, com ênfase na área de prevenção do câncer, e Medicina Paliativa, especialidade voltada aos cuidados ao final de vida, em São Paulo (SP).
 






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